Muitas das respostas estão diante do espelho
De novo uma história (ou estória), mais uma vez de autor (para mim) desconhecido. Considero-a um enorme ensinamento, mormente neste tempo de Quaresma, de revisão de vida, de apelo à conversão. Valerá a pena meditá-la, convocados como somos para o espelho, à descoberta de desalinhos, de maior aprumo, do melhor caminho, da perfeição possível.
Reza assim, dando-lhe apenas um pequeno jeito no português:
“Depois de mais de 30 anos de casamento, ele começou a notar algo estranho… A esposa, sempre tão atenta, parecia diferente. Já não respondia às suas perguntas como dantes. Às vezes, parecia distante. Outras, distraída. Muitas vezes, simplesmente… permanecia em silêncio.
Ele começou a perguntar-se:
«Será que ela está chateada comigo? Será que fiz algo de errado? Ou será… que ela está com algum problema de saúde?»
A preocupação não deu tréguas. Então, em vez de se irritar ou brigar — como muitos fariam — decidiu buscar orientação.
No consultório, desabafou:
— Doutor, acho que a minha esposa está com um problema de audição. O que posso fazer sem assustá-la?
O médico, experiente, sorriu com paciência e disse:
— Calma. Antes de imaginar o pior, faça um teste simples. Chegue a casa, fale com ela de longe, uns 15 metros. Se não responder, aproxime-se e repita a mesma pergunta. Vá- se aproximando até ter a certeza de que é ela que não quer responder, ou então de que há mesmo algum problema de audição.
Ele saiu do consultório com o coração leve, animado a fazer o «teste do médico».
Naquela noite, ao abrir a porta de casa, sentiu o cheiro acolhedor que só o lar tem. Um misto de alho refogado, temperos no ar e aquele calor que vinha da cozinha.
E lá estava ela, de costas, mexendo as panelas com tanto carinho como fazia há décadas.
Ele sorriu, orgulhoso daquela cena que já era parte da rotina. Mas lembrou-se do que tinha ficado de fazer.
Então, lá da sala, a uns bons 15 metros, perguntou:
— Amor, o que temos para o jantar?
Silêncio.
Deu alguns passos. A uns 10 metros, repetiu:
— O que vamos comer hoje, meu bem?
De novo… nada.
Agora, quase na porta da cozinha, insistiu:
— Vida, o que estás a fazer aí?
Mais silêncio.
Então, decidido, chegou bem perto, encostando-se quase a ela, e perguntou outra vez, com mais firmeza:
— O que temos para o jantar, meu amor?
Foi nesse instante que ela largou a colher de pau, girou o corpo, olhos arregalados, e respondeu, já sem paciência:
— EU JÁ TE FALEI CINCO VEZES QUE É FRANGO!!!
Ele ficou paralisado. O choque foi imediato. A ficha caiu como um raio. O problema de audição… não era dela. Era dele.
Naquele momento, escapou-se-lhe um riso nervoso. Mas logo se abriu a uma reflexão profunda…
Afinal, quantas vezes, na vida, não fazemos a mesma coisa?
Quantas vezes acreditamos que o problema está no outro — quando, na verdade, a falha é nossa?
É mais fácil apontar, culpar, desconfiar… do que olhar para dentro.
Mas a verdade é que muitas das respostas que buscamos estão diante do espelho”.
Quiçá um dos bons caminhos quaresmais possa ser esse: menos dedo indicador, mais espelho; menos olho colocado nos defeitos dos outros, maior consciência das próprias debilidades; menor aposta em mudar os outros, maior empenho em corrigir-se.
Boa Quarema para todos… diante do espelho!
Cón. José Paulo Leite de Abreu
Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro
Muitas das respostas estão diante do espelho
De novo uma história (ou estória), mais uma vez de autor (para mim) desconhecido. Considero-a um enorme ensinamento, mormente neste tempo de Quaresma, de revisão de vida, de apelo à conversão. Valerá a pena meditá-la, convocados como somos para o espelho, à descoberta de desalinhos, de maior aprumo, do melhor caminho, da perfeição possível.
Reza assim, dando-lhe apenas um pequeno jeito no português:
“Depois de mais de 30 anos de casamento, ele começou a notar algo estranho… A esposa, sempre tão atenta, parecia diferente. Já não respondia às suas perguntas como dantes. Às vezes, parecia distante. Outras, distraída. Muitas vezes, simplesmente… permanecia em silêncio.
Ele começou a perguntar-se:
«Será que ela está chateada comigo? Será que fiz algo de errado? Ou será… que ela está com algum problema de saúde?»
A preocupação não deu tréguas. Então, em vez de se irritar ou brigar — como muitos fariam — decidiu buscar orientação.
No consultório, desabafou:
— Doutor, acho que a minha esposa está com um problema de audição. O que posso fazer sem assustá-la?
O médico, experiente, sorriu com paciência e disse:
— Calma. Antes de imaginar o pior, faça um teste simples. Chegue a casa, fale com ela de longe, uns 15 metros. Se não responder, aproxime-se e repita a mesma pergunta. Vá- se aproximando até ter a certeza de que é ela que não quer responder, ou então de que há mesmo algum problema de audição.
Ele saiu do consultório com o coração leve, animado a fazer o «teste do médico».
Naquela noite, ao abrir a porta de casa, sentiu o cheiro acolhedor que só o lar tem. Um misto de alho refogado, temperos no ar e aquele calor que vinha da cozinha.
E lá estava ela, de costas, mexendo as panelas com tanto carinho como fazia há décadas.
Ele sorriu, orgulhoso daquela cena que já era parte da rotina. Mas lembrou-se do que tinha ficado de fazer.
Então, lá da sala, a uns bons 15 metros, perguntou:
— Amor, o que temos para o jantar?
Silêncio.
Deu alguns passos. A uns 10 metros, repetiu:
— O que vamos comer hoje, meu bem?
De novo… nada.
Agora, quase na porta da cozinha, insistiu:
— Vida, o que estás a fazer aí?
Mais silêncio.
Então, decidido, chegou bem perto, encostando-se quase a ela, e perguntou outra vez, com mais firmeza:
— O que temos para o jantar, meu amor?
Foi nesse instante que ela largou a colher de pau, girou o corpo, olhos arregalados, e respondeu, já sem paciência:
— EU JÁ TE FALEI CINCO VEZES QUE É FRANGO!!!
Ele ficou paralisado. O choque foi imediato. A ficha caiu como um raio. O problema de audição… não era dela. Era dele.
Naquele momento, escapou-se-lhe um riso nervoso. Mas logo se abriu a uma reflexão profunda…
Afinal, quantas vezes, na vida, não fazemos a mesma coisa?
Quantas vezes acreditamos que o problema está no outro — quando, na verdade, a falha é nossa?
É mais fácil apontar, culpar, desconfiar… do que olhar para dentro.
Mas a verdade é que muitas das respostas que buscamos estão diante do espelho”.
Quiçá um dos bons caminhos quaresmais possa ser esse: menos dedo indicador, mais espelho; menos olho colocado nos defeitos dos outros, maior consciência das próprias debilidades; menor aposta em mudar os outros, maior empenho em corrigir-se.
Boa Quarema para todos… diante do espelho!
Cón. José Paulo Leite de Abreu
Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro







