Não somos terráqueos de asas partidas!

Não somos terráqueos de asas partidas!

Multiplicam-se as vozes, condoídas umas, outras com o ar friamente estatístico, reportando a diminuição de frequência dos fiéis aos sacramentos, concretamente ao da Eucaristia.  As pessoas de idade vão falecendo e os bancos que ocupavam ficam agora desertos. Muitos têm horários de trabalho que os impedem de participar. Outros trabalham tanto que precisam do domingo para descansar. Outros acabaram de chegar à cama quando o sino tocou para a missa. Outros têm tudo e entendem que Deus não lhes faz falta, nem muito menos a comunidade cristã. Outros ainda confortam-se apontando o dedo aos que vão à missa, assumindo o papel de juízes e dando de imediato a sentença: os que lá vão (à Igreja) são piores que os outros…

Enfim, todos encontram motivos para justificar absentismo e abafar a razão inequívoca: Deus não está lá, não está no coração, na vida, nas prioridades, no topo da hierarquia, nas decisões, no afeto, no relacionamento amoroso de cada dia. Abundam os que, na realidade, no fundo, no âmago, não precisam de Deus nem da Igreja para nada. São ricos. Bastam-se. São autorreferenciais. São o seu próprio umbigo, visto ao espelho.

Enchem-se as igrejas com miúdos para a primeira comunhão. Uma festa. Grande rebuliço. Bué de fotos. Banquete a preceito. Mas no domingo seguinte, lá estão os bancos vazios, a testemunhar compromissos efetivamente não assumidos, a espelhar brilho e cromado para muito pouco sumo de uva. E que dizer de casamentos com missa onde as respostas não se ouvem? Ou de igrejas cheias em funerais, mas desertas nos normais horários celebrativos?

Não. A ideia não é acusar nem denegrir. Mas sim chamar para o valor da Eucaristia, a merecer a participação de todos nós. Se a família de sangue se reúne e se esforça por isso, por que não há-de reunir-se e não nos haveremos de esforçar por participar quando se reúne a família da fé?! Se nos temos que alimentar fisicamente, por que não nos teremos de alimentar espiritualmente (e na Eucaristia temos um duplo alimento: a Palavra de Deus e o próprio Jesus – o pão e o vinho, transformados pela força do Espírito – no seu corpo e no seu sangue)?! Se procuramos crescer no conhecimento de tudo, porquê o “doutoramento” apenas com a primeira comunhão?! Se quem ama procura sempre o amado ou aqueles a quem ama, então qual a razão para não procurarmos Deus e os irmãos na fé?!

Consideramos da maior utilidade o GPS, ou o Wase…, ou até as placas de sinalização que aparecem pela estrada, dizendo-nos do caminho que estamos a percorrer, do destino que nos espera, dos quilómetros que faltam…. Pois bem: a Eucaristia é esse marco na estrada, que nos vai sempre lembrando o caminho que estamos a percorrer e a meta que queremos alcançar.

E assim tudo na vida faz sentido. Não andamos aqui apenas para fazer sombra quando o sol se lembra de nos bater.  Não andamos aqui por acaso, nem somos terráqueos de asas partidas. Temos de nos manter no caminho certo.  Cada domingo é um marco na estrada, a cadenciar o ritmo da peregrinação e a relembrar o destino. Mais: a cada domingo podemos levar ao altar a semana que findou e colher bênçãos para a que se segue. E sabemo-nos sempre no rumo certo, com a companhia certa, projetados para a felicidade eterna.

Li, não há muito, um pequeno texto intitulado “Porquê ir à missa?”. Fala de um editor de jornal que lançou essa questão para debate.

Alguém respondeu: “Há 30 anos que tenho ido à missa, e durante este tempo ouvi uns 3 000 sermões, mas não consigo lembrar-me de nenhum deles… Assim eu penso que estou a perder o meu tempo e os padres estão a desperdiçar o tempo deles pregando sermões!».

Esta resposta gerou assinalável controvérsia, provocou semanas de discussão, muitos artigos, muitas “Cartas ao Diretor”, até que alguém escreveu o seguinte: “Estou casado há 30 anos. Durante este tempo a minha esposa deve ter cozinhado umas 32 000 refeições. Não consigo lembrar-me da ementa de nenhuma delas, mas de uma coisa eu sei: todas me alimentaram e deram a força que precisava para fazer o meu trabalho… Se a minha esposa não me tivesse dado estas refeições, hoje, eu estaria fisicamente morto. Da mesma maneira, se não tivesse participado nas missas, para alimentar a minha fome espiritual, hoje, eu estaria morto espiritualmente”.

Valerá a pena pensarmos nisto?!

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

Não somos terráqueos de asas partidas!

Multiplicam-se as vozes, condoídas umas, outras com o ar friamente estatístico, reportando a diminuição de frequência dos fiéis aos sacramentos, concretamente ao da Eucaristia.  As pessoas de idade vão falecendo e os bancos que ocupavam ficam agora desertos. Muitos têm horários de trabalho que os impedem de participar. Outros trabalham tanto que precisam do domingo para descansar. Outros acabaram de chegar à cama quando o sino tocou para a missa. Outros têm tudo e entendem que Deus não lhes faz falta, nem muito menos a comunidade cristã. Outros ainda confortam-se apontando o dedo aos que vão à missa, assumindo o papel de juízes e dando de imediato a sentença: os que lá vão (à Igreja) são piores que os outros…

Enfim, todos encontram motivos para justificar absentismo e abafar a razão inequívoca: Deus não está lá, não está no coração, na vida, nas prioridades, no topo da hierarquia, nas decisões, no afeto, no relacionamento amoroso de cada dia. Abundam os que, na realidade, no fundo, no âmago, não precisam de Deus nem da Igreja para nada. São ricos. Bastam-se. São autorreferenciais. São o seu próprio umbigo, visto ao espelho.

Enchem-se as igrejas com miúdos para a primeira comunhão. Uma festa. Grande rebuliço. Bué de fotos. Banquete a preceito. Mas no domingo seguinte, lá estão os bancos vazios, a testemunhar compromissos efetivamente não assumidos, a espelhar brilho e cromado para muito pouco sumo de uva. E que dizer de casamentos com missa onde as respostas não se ouvem? Ou de igrejas cheias em funerais, mas desertas nos normais horários celebrativos?

Não. A ideia não é acusar nem denegrir. Mas sim chamar para o valor da Eucaristia, a merecer a participação de todos nós. Se a família de sangue se reúne e se esforça por isso, por que não há-de reunir-se e não nos haveremos de esforçar por participar quando se reúne a família da fé?! Se nos temos que alimentar fisicamente, por que não nos teremos de alimentar espiritualmente (e na Eucaristia temos um duplo alimento: a Palavra de Deus e o próprio Jesus – o pão e o vinho, transformados pela força do Espírito – no seu corpo e no seu sangue)?! Se procuramos crescer no conhecimento de tudo, porquê o “doutoramento” apenas com a primeira comunhão?! Se quem ama procura sempre o amado ou aqueles a quem ama, então qual a razão para não procurarmos Deus e os irmãos na fé?!

Consideramos da maior utilidade o GPS, ou o Wase…, ou até as placas de sinalização que aparecem pela estrada, dizendo-nos do caminho que estamos a percorrer, do destino que nos espera, dos quilómetros que faltam…. Pois bem: a Eucaristia é esse marco na estrada, que nos vai sempre lembrando o caminho que estamos a percorrer e a meta que queremos alcançar.

E assim tudo na vida faz sentido. Não andamos aqui apenas para fazer sombra quando o sol se lembra de nos bater.  Não andamos aqui por acaso, nem somos terráqueos de asas partidas. Temos de nos manter no caminho certo.  Cada domingo é um marco na estrada, a cadenciar o ritmo da peregrinação e a relembrar o destino. Mais: a cada domingo podemos levar ao altar a semana que findou e colher bênçãos para a que se segue. E sabemo-nos sempre no rumo certo, com a companhia certa, projetados para a felicidade eterna.

Li, não há muito, um pequeno texto intitulado “Porquê ir à missa?”. Fala de um editor de jornal que lançou essa questão para debate.

Alguém respondeu: “Há 30 anos que tenho ido à missa, e durante este tempo ouvi uns 3 000 sermões, mas não consigo lembrar-me de nenhum deles… Assim eu penso que estou a perder o meu tempo e os padres estão a desperdiçar o tempo deles pregando sermões!».

Esta resposta gerou assinalável controvérsia, provocou semanas de discussão, muitos artigos, muitas “Cartas ao Diretor”, até que alguém escreveu o seguinte: “Estou casado há 30 anos. Durante este tempo a minha esposa deve ter cozinhado umas 32 000 refeições. Não consigo lembrar-me da ementa de nenhuma delas, mas de uma coisa eu sei: todas me alimentaram e deram a força que precisava para fazer o meu trabalho… Se a minha esposa não me tivesse dado estas refeições, hoje, eu estaria fisicamente morto. Da mesma maneira, se não tivesse participado nas missas, para alimentar a minha fome espiritual, hoje, eu estaria morto espiritualmente”.

Valerá a pena pensarmos nisto?!

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

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