O melhor sermão desta Quaresma/Páscoa 2026

O melhor sermão desta Quaresma/Páscoa 2026

Vão-se ouvindo um pouco por todo o lado. Às vezes é apenas o Sermão do Encontro, outras também o do Pretório e, no final de uma mais ou menos majestosa procissão, o do Calvário.

Escolhe-se o pregador, tentando-se um bom proclamador da Palavra de Deus, centrado no fundamental da vida cristã, que é o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Do púlpito, muitas vezes improvisado, ouvem-se palavras que apelam à conversão, ao arrependimento, à adoração de um Deus que se oferece num cúmulo de bondade, compaixão, misericórdia e amor infinito. Do orador sagrado vem a chama que incendeia a devoção, a alma boa de cada crente, o desejo de melhoria de vida. E quando no meio da rua, em plena procissão, se encena o encontro de Jesus com Nossa Senhora, o ritmo cardíaco aumenta, a emoção é forte, de muitos olhos brotam lágrimas, o tom de voz do arauto do acontecimento eleva-se, o povo vibra, a rua estremece, o coração dos fiéis aquece com imenso fervor e ternura por Jesus e por sua Mãe Santíssima.

Tudo isso é certo. Assim costuma ser.

Mas hoje venho falar-lhe de um pregador muito especial. Não foi convidado por nenhuma Comissão de Festas, por nenhum pároco, por nenhuma Irmandade, por nenhuma Comissão da Semana Santa. Pior: não é um pregador afamado, não tem créditos firmados, nem aparenta maturidade para compromisso tão solene. E nem sequer lhe foi indicado qualquer púlpito de onde teria de falar.

Pare um pouco e deixe-me levá-lo pela mão. Vamos entrar na Igreja do Carmo, em pleno centro da cidade de Braga, ali bem pertinho do Campo da Vinha. Poisada no chão, ao centro e junto aos degraus que dão acesso ao altar, está uma cruz, com Jesus bem cravado nela, uma coroa de espinhos na cabeça, o lado aberto pela lança de um soldado, o corpo manchado de sangue, da cabeça até aos pés. No corpo de Cristo está espelhado o sofrimento todo, imenso, indescritível.

Algum povo está na Igreja a rezar, a contemplar. Ao que tudo indica, não aguarda por qualquer pregador. Aliás, tudo é silêncio, meditação, contemplação da cruz onde o redentor se deixou imolar.

Mas eis que o pregador emerge do seio da multidão. Viera protegido pelas mãos calejadas de uma terna avó. Veste simples, mas mostra-se resoluto. Tem apenas dois anos e meio.

Mesmo sem lhe terem encomendado o sermão, aproxima-se de Jesus, não cessa de o beijar, nas mãos, no rosto, no tórax, nos pés. Ao beijar-lhe a cabeça nota e comenta: “pica, pica”. Mas mesmo assim, picando, continuou a beijá-lo muito. E vai perguntando, bem audível: “quem fez dói-dói a Jesus?” E voltando-se para as pessoas, quer saber: “por que é que Jesus tem tanto dói-dói?”

O pregador foi tocando com as suas mãos no corpo de Jesus, onde as feridas precisavam de afago. Parou um pouco ao tocar-lhe no ombro, o povo a ler-lhe nos olhitos a pergunta lancinante: “porquê?” Depois, pegou em algumas moedas que estavam num cestinho colocado aos pés do crucifixo e quis colocá-las na mão direita de Jesus. A ideia era simples: Jesus precisaria de dinheiro para se cuidar. Ele mimou, cuidou, afagou Jesus. Mas entendeu que Jesus precisava ainda de outros cuidados. E para isso haveria que dar-lhe algumas moeditas.

A avó ficou aflita ao ver o miúdo mexer nas moedas. E foi pegar nele. Tudo bem. Nenhum drama. Afinal, o petiz orador já tinha espalhado a mensagem: quem fez/faz tanto dói-dói a Jesus?  Que razões para o fazerem (fazermos) sofrer tanto? E agora, como se pode remediar o mal?

Perdoem-me todos os afamados pregadores. Até ouvi um excelente, na Catedral de Braga, o Núncio Apostólico, nas tardes de quinta e sexta-feira do tríduo pascal. Mas o “óscar” deste ano 2026, a “bola de ouro”, o prémio de “homem do jogo” vai para um mini orador, sem convocatória nem púlpito que, além de pregar, ainda deixou uns trocados para cuidar do sofredor que – feliz intuição de uma criança inocente – mesmo tendo sofrido imenso, mesmo tendo passado pela morte (à perceção do miudito isto terá escapado) continua vivo, a requerer a nossa conversão e a desejar o nosso amor.

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

O melhor sermão desta Quaresma/Páscoa 2026

Vão-se ouvindo um pouco por todo o lado. Às vezes é apenas o Sermão do Encontro, outras também o do Pretório e, no final de uma mais ou menos majestosa procissão, o do Calvário.

Escolhe-se o pregador, tentando-se um bom proclamador da Palavra de Deus, centrado no fundamental da vida cristã, que é o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Do púlpito, muitas vezes improvisado, ouvem-se palavras que apelam à conversão, ao arrependimento, à adoração de um Deus que se oferece num cúmulo de bondade, compaixão, misericórdia e amor infinito. Do orador sagrado vem a chama que incendeia a devoção, a alma boa de cada crente, o desejo de melhoria de vida. E quando no meio da rua, em plena procissão, se encena o encontro de Jesus com Nossa Senhora, o ritmo cardíaco aumenta, a emoção é forte, de muitos olhos brotam lágrimas, o tom de voz do arauto do acontecimento eleva-se, o povo vibra, a rua estremece, o coração dos fiéis aquece com imenso fervor e ternura por Jesus e por sua Mãe Santíssima.

Tudo isso é certo. Assim costuma ser.

Mas hoje venho falar-lhe de um pregador muito especial. Não foi convidado por nenhuma Comissão de Festas, por nenhum pároco, por nenhuma Irmandade, por nenhuma Comissão da Semana Santa. Pior: não é um pregador afamado, não tem créditos firmados, nem aparenta maturidade para compromisso tão solene. E nem sequer lhe foi indicado qualquer púlpito de onde teria de falar.

Pare um pouco e deixe-me levá-lo pela mão. Vamos entrar na Igreja do Carmo, em pleno centro da cidade de Braga, ali bem pertinho do Campo da Vinha. Poisada no chão, ao centro e junto aos degraus que dão acesso ao altar, está uma cruz, com Jesus bem cravado nela, uma coroa de espinhos na cabeça, o lado aberto pela lança de um soldado, o corpo manchado de sangue, da cabeça até aos pés. No corpo de Cristo está espelhado o sofrimento todo, imenso, indescritível.

Algum povo está na Igreja a rezar, a contemplar. Ao que tudo indica, não aguarda por qualquer pregador. Aliás, tudo é silêncio, meditação, contemplação da cruz onde o redentor se deixou imolar.

Mas eis que o pregador emerge do seio da multidão. Viera protegido pelas mãos calejadas de uma terna avó. Veste simples, mas mostra-se resoluto. Tem apenas dois anos e meio.

Mesmo sem lhe terem encomendado o sermão, aproxima-se de Jesus, não cessa de o beijar, nas mãos, no rosto, no tórax, nos pés. Ao beijar-lhe a cabeça nota e comenta: “pica, pica”. Mas mesmo assim, picando, continuou a beijá-lo muito. E vai perguntando, bem audível: “quem fez dói-dói a Jesus?” E voltando-se para as pessoas, quer saber: “por que é que Jesus tem tanto dói-dói?”

O pregador foi tocando com as suas mãos no corpo de Jesus, onde as feridas precisavam de afago. Parou um pouco ao tocar-lhe no ombro, o povo a ler-lhe nos olhitos a pergunta lancinante: “porquê?” Depois, pegou em algumas moedas que estavam num cestinho colocado aos pés do crucifixo e quis colocá-las na mão direita de Jesus. A ideia era simples: Jesus precisaria de dinheiro para se cuidar. Ele mimou, cuidou, afagou Jesus. Mas entendeu que Jesus precisava ainda de outros cuidados. E para isso haveria que dar-lhe algumas moeditas.

A avó ficou aflita ao ver o miúdo mexer nas moedas. E foi pegar nele. Tudo bem. Nenhum drama. Afinal, o petiz orador já tinha espalhado a mensagem: quem fez/faz tanto dói-dói a Jesus?  Que razões para o fazerem (fazermos) sofrer tanto? E agora, como se pode remediar o mal?

Perdoem-me todos os afamados pregadores. Até ouvi um excelente, na Catedral de Braga, o Núncio Apostólico, nas tardes de quinta e sexta-feira do tríduo pascal. Mas o “óscar” deste ano 2026, a “bola de ouro”, o prémio de “homem do jogo” vai para um mini orador, sem convocatória nem púlpito que, além de pregar, ainda deixou uns trocados para cuidar do sofredor que – feliz intuição de uma criança inocente – mesmo tendo sofrido imenso, mesmo tendo passado pela morte (à perceção do miudito isto terá escapado) continua vivo, a requerer a nossa conversão e a desejar o nosso amor.

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

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