O meu mestre foi um cão!

O meu mestre foi um cão!

Os estudos estão feitos e as conclusões são unânimes: os mais felizes são aqueles que se dedicam aos outros. As profissões que implicam “sair de si”, estão lá mais à beirinha da felicidade. Ninguém se realiza plenamente a olhar apenas para o próprio umbigo, ou a viver como o caracol debaixo da concha, protegido do exterior – é certo, mas sempre envolto em trevas. A lógica do parafuso, que enrosca sempre em torno de si próprio, parece não gerar alegria, nem festa, nem contentamento.

Um dia – conta-se – alguns “sufi’s” (místicos muçulmanos) viraram-se para o seu mestre e disseram-lhe: queremos homenagear quem tão egregiamente te formou. És um mestre insigne. Alguém te preparou muitíssimo bem. Merece a nossa gratidão.

A surpresa foi enorme: o meu formador – palavras do mestre, foi um cão.

– Como?! Um cão?!

– Sim, insistiu. Foi um cão. E assim se passou: vi um cão a aproximar-se de uma charca de água, a morrer de sede. Aproximou-se, inclinou o focinho para beber, mas ao ver-se refletido na água, teve medo, pensou ser outro cão, e retirou-se sem beber. Claro que isso não lhe resolveu o problema. Passado um bocado, acossado pela sede, voltou a abeirar-se da água, voltou a ver o seu focinho espelhado na água e bateu de novo em retirada. Mais um naco de tempo, nova aproximação e, desta terceira vez, o cão perdeu o medo, mergulhou o focinho e bebeu. Foi aí que percebi: enquanto só nos vemos a nós próprios, enquanto só pensamos em nós, estiolamos, morremos de sede, definhamos; quando nos atiramos p’ra frente, sem medo, quando passamos para além da nossa própria imagem, do nosso eu, tudo renasce, matamos a sede, recuperamos saúde e conforto. O meu mestre foi um cão!

A mesma lição quis um outro mestre ensinar a seus alunos, desta feita, porém, servindo-se de balões. Começou por distribuir um balão a cada aluno. Pediu depois que cada um enchesse o seu e lhe colocasse o nome. Trabalho realizado, os balões foram todos colocados num corredor, misturados. A cada aluno foi dado o tempo de 5 minutos para encontrar o seu próprio balão. Tarefa inglória. Os balões, continuamente remexidos, continuamente a misturarem-se, não se deixavam encontrar pelo dono. Foi então que o professor sugeriu nova metodologia: cada um pegava num balão e entregava-o à pessoa que nele tinha inscrito o seu nome. Em poucos minutos, os balões estavam todos entregues, cada aluno com o seu, de acordo com o nome que nele tinha colocado.

Conclui a história que estou a decalcar (e que ignoro a quem pertence): “O professor então explicou: «Esses balões representam a felicidade. Se ficarmos apenas procurando pela nossa, dificilmente a encontraremos. Mas, quando nos preocupamos com a felicidade dos outros, acabamos por encontrar também a nossa»”.

Confesso que a inspiração para este editorial lança raízes na Bíblia, no Novo Testamento, mais concretamente num episódio conhecido como da “Visitação”. Depois de um anjo lhe ter dito ter sido escolhida para Mãe do Salvador, uma Virgem de Nazaré, de nome Maria, saiu de sua casa, pôs-se a caminho, apressadamente, rumo à montanha, em direção a Judá, para se encontrar com uma prima, chamada Isabel, que o anjo lhe tinha disto estar grávida e já no sexto mês. Tudo é lógico: o encontro com Deus, com a Sua vontade, implica êxodo, de si, rumo ao próximo, implica disponibilidade, generosidade, entrega. Deus empurra sempre para o ofertório, para o dom, para a dádiva generosa. E Maria vai célere, em bicos de pés; vai animada, confiante, de coração rasgado. E tudo é girândola de felicidade: “Bendita és tu entre as mulheres”; “De onde me é dado que venha ter comigo a Mãe o meu Senhor?!”; “O menino saltou de alegria no meu seio; “Feliz de ti que acreditaste”.

Que a Mãe nos ensine a ser felizes, sempre disponíveis, pés na estrada, mãos estendidas, o próximo como meta, a vida como dom. E o travesseiro sentirá, ao final de cada dia, a serenidade do dever cumprido, o deleite de uma vida útil, o consolo de um amor pleno a Deus e aos outros, o sabor a felicidade que só a “toalha à cintura” nos consegue dar!

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

O meu mestre foi um cão!

Os estudos estão feitos e as conclusões são unânimes: os mais felizes são aqueles que se dedicam aos outros. As profissões que implicam “sair de si”, estão lá mais à beirinha da felicidade. Ninguém se realiza plenamente a olhar apenas para o próprio umbigo, ou a viver como o caracol debaixo da concha, protegido do exterior – é certo, mas sempre envolto em trevas. A lógica do parafuso, que enrosca sempre em torno de si próprio, parece não gerar alegria, nem festa, nem contentamento.

Um dia – conta-se – alguns “sufi’s” (místicos muçulmanos) viraram-se para o seu mestre e disseram-lhe: queremos homenagear quem tão egregiamente te formou. És um mestre insigne. Alguém te preparou muitíssimo bem. Merece a nossa gratidão.

A surpresa foi enorme: o meu formador – palavras do mestre, foi um cão.

– Como?! Um cão?!

– Sim, insistiu. Foi um cão. E assim se passou: vi um cão a aproximar-se de uma charca de água, a morrer de sede. Aproximou-se, inclinou o focinho para beber, mas ao ver-se refletido na água, teve medo, pensou ser outro cão, e retirou-se sem beber. Claro que isso não lhe resolveu o problema. Passado um bocado, acossado pela sede, voltou a abeirar-se da água, voltou a ver o seu focinho espelhado na água e bateu de novo em retirada. Mais um naco de tempo, nova aproximação e, desta terceira vez, o cão perdeu o medo, mergulhou o focinho e bebeu. Foi aí que percebi: enquanto só nos vemos a nós próprios, enquanto só pensamos em nós, estiolamos, morremos de sede, definhamos; quando nos atiramos p’ra frente, sem medo, quando passamos para além da nossa própria imagem, do nosso eu, tudo renasce, matamos a sede, recuperamos saúde e conforto. O meu mestre foi um cão!

A mesma lição quis um outro mestre ensinar a seus alunos, desta feita, porém, servindo-se de balões. Começou por distribuir um balão a cada aluno. Pediu depois que cada um enchesse o seu e lhe colocasse o nome. Trabalho realizado, os balões foram todos colocados num corredor, misturados. A cada aluno foi dado o tempo de 5 minutos para encontrar o seu próprio balão. Tarefa inglória. Os balões, continuamente remexidos, continuamente a misturarem-se, não se deixavam encontrar pelo dono. Foi então que o professor sugeriu nova metodologia: cada um pegava num balão e entregava-o à pessoa que nele tinha inscrito o seu nome. Em poucos minutos, os balões estavam todos entregues, cada aluno com o seu, de acordo com o nome que nele tinha colocado.

Conclui a história que estou a decalcar (e que ignoro a quem pertence): “O professor então explicou: «Esses balões representam a felicidade. Se ficarmos apenas procurando pela nossa, dificilmente a encontraremos. Mas, quando nos preocupamos com a felicidade dos outros, acabamos por encontrar também a nossa»”.

Confesso que a inspiração para este editorial lança raízes na Bíblia, no Novo Testamento, mais concretamente num episódio conhecido como da “Visitação”. Depois de um anjo lhe ter dito ter sido escolhida para Mãe do Salvador, uma Virgem de Nazaré, de nome Maria, saiu de sua casa, pôs-se a caminho, apressadamente, rumo à montanha, em direção a Judá, para se encontrar com uma prima, chamada Isabel, que o anjo lhe tinha disto estar grávida e já no sexto mês. Tudo é lógico: o encontro com Deus, com a Sua vontade, implica êxodo, de si, rumo ao próximo, implica disponibilidade, generosidade, entrega. Deus empurra sempre para o ofertório, para o dom, para a dádiva generosa. E Maria vai célere, em bicos de pés; vai animada, confiante, de coração rasgado. E tudo é girândola de felicidade: “Bendita és tu entre as mulheres”; “De onde me é dado que venha ter comigo a Mãe o meu Senhor?!”; “O menino saltou de alegria no meu seio; “Feliz de ti que acreditaste”.

Que a Mãe nos ensine a ser felizes, sempre disponíveis, pés na estrada, mãos estendidas, o próximo como meta, a vida como dom. E o travesseiro sentirá, ao final de cada dia, a serenidade do dever cumprido, o deleite de uma vida útil, o consolo de um amor pleno a Deus e aos outros, o sabor a felicidade que só a “toalha à cintura” nos consegue dar!

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

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