O que Deus espalhou por todos os cantos do mundo!…

O que Deus espalhou por todos os cantos do mundo!…

Uma das parábolas que o evangelista Mateus reporta, no seu famoso capítulo 13, é a do trigo e do joio. Diz Jesus que convivem, têm de conviver, e a destrinça entre um e outro só se dará no fim dos tempos. O joio será lançado ao fogo; o trigo será guardado no celeiro.

Não gostaríamos que assim fosse. Somos muito imediatistas. Por nosso desejo, teríamos a sociedade só constituída por boa gente (e desse lado nos posicionamos sempre) e os maus seriam postergados de imediato. Até na Igreja desejaríamos que assim fosse: só lá estariam os bons, sendo os maus colocados para lá do adro.

Mas nada disso sucede. O bom e o mau andam juntos, em casa, no trabalho, na rua, no desporto, na vida associativa, na Igreja, em todo o lado.

Conta alguém com muita graça que Deus espalhou homens bons por todos os cantos do mundo. Com efeito, em todos os cantos há homens honestos, trabalhadores, leais, amigos dos filhos e da esposa, amigos do seu amigo, devotos, generosos, santos… O azar, diz o meu amigo, é que afinal Deus criou o mundo redondo, e os cantos ficaram de fora.

Diz ainda o meu amigo que por todos os cantos Deus criou mulheres boas, honestas, não ciumentas, generosas em extremo para os seus maridos e para os seus filhos, leais, verdadeiras, devotas, corações imensos, santas… Mas também aqui o impensável aconteceu: Deus criou o mundo redondo, e as boas mulheres que foram espalhadas por todos os cantos, imaculadas, santas, sem defeito, ficaram de fora.

Pelos vistos também sucede assim com a Igreja: Deus espalhou por todos os cantos padres bons, santos, piedosos, perfeitos, sem mácula, heróis, anjos com asas, devotos, altruístas em altíssimo grau… só que depois disso Deus criou o mundo redondo, e os padres celestiais, quais querubins e serafins, ficaram nas bordas e não na realidade existente.

Os fiéis também cabem na má-língua do meu amigo. Deus colocou em todos os cantos da terra fiéis exemplares, modelos acabados da suprema santidade, amigos de todos, construtores infatigáveis do reino de Deus, batizados com toda a água benta, gente de suprema estatura na sociedade por Deus constituída. Mas mais uma vez o problema está no formato do mundo: sem cantos, os tais onde os fiéis de altíssima estaleca foram sediados, o mundo redondo deixando-os do lado de fora.

Ora, meus caros, a realidade é então essa: o limite (salvo raríssimas exceções) está por todo o lado; está por todo o lado a imperfeição, o pecado; estão por todo o lado as telhas de vidro, as brechas, as debilidades.

E agora o que nos resta não é o dedo justiceiro; a mania das grandezas; o julgar os outros; o falar de cima da burra; o colocarmo-nos asas enquanto metemos na fogueira o vizinho de cima e o de baixo, a colega de trabalho e o homem do talho, o namorado da Micas e o afilhado da Zefa.

Temos, antes, que nos auxiliar. Que dar as mãos. Que tentar a correção fraterna. Que abundar em compreensão, em tolerância, em paciência, em misericórdia. Tal como Deus é lento na ira e rico em misericórdia, assim devemos ser. Tal como Deus é clemente e compassivo, assim nos teremos de construir.

Ajudemo-nos. Ajudemo-nos a corrigi defeitos. Ajudemo-nos a crescer na virtude. Mais do que destroçar com palavas ou atitudes, sejamos marcas positivas e incentivos de crescimento nas vidas uns dos outros.

No final dará Deus a cada um o que lhe pertence. E oxalá que o destino não seja para nós o fogo, mas o celeiro onde o trigo se guarda, para depois servir de alimento na mesa farta e feliz do reino dos céus.

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

 

O que Deus espalhou por todos os cantos do mundo!…

Uma das parábolas que o evangelista Mateus reporta, no seu famoso capítulo 13, é a do trigo e do joio. Diz Jesus que convivem, têm de conviver, e a destrinça entre um e outro só se dará no fim dos tempos. O joio será lançado ao fogo; o trigo será guardado no celeiro.

Não gostaríamos que assim fosse. Somos muito imediatistas. Por nosso desejo, teríamos a sociedade só constituída por boa gente (e desse lado nos posicionamos sempre) e os maus seriam postergados de imediato. Até na Igreja desejaríamos que assim fosse: só lá estariam os bons, sendo os maus colocados para lá do adro.

Mas nada disso sucede. O bom e o mau andam juntos, em casa, no trabalho, na rua, no desporto, na vida associativa, na Igreja, em todo o lado.

Conta alguém com muita graça que Deus espalhou homens bons por todos os cantos do mundo. Com efeito, em todos os cantos há homens honestos, trabalhadores, leais, amigos dos filhos e da esposa, amigos do seu amigo, devotos, generosos, santos… O azar, diz o meu amigo, é que afinal Deus criou o mundo redondo, e os cantos ficaram de fora.

Diz ainda o meu amigo que por todos os cantos Deus criou mulheres boas, honestas, não ciumentas, generosas em extremo para os seus maridos e para os seus filhos, leais, verdadeiras, devotas, corações imensos, santas… Mas também aqui o impensável aconteceu: Deus criou o mundo redondo, e as boas mulheres que foram espalhadas por todos os cantos, imaculadas, santas, sem defeito, ficaram de fora.

Pelos vistos também sucede assim com a Igreja: Deus espalhou por todos os cantos padres bons, santos, piedosos, perfeitos, sem mácula, heróis, anjos com asas, devotos, altruístas em altíssimo grau… só que depois disso Deus criou o mundo redondo, e os padres celestiais, quais querubins e serafins, ficaram nas bordas e não na realidade existente.

Os fiéis também cabem na má-língua do meu amigo. Deus colocou em todos os cantos da terra fiéis exemplares, modelos acabados da suprema santidade, amigos de todos, construtores infatigáveis do reino de Deus, batizados com toda a água benta, gente de suprema estatura na sociedade por Deus constituída. Mas mais uma vez o problema está no formato do mundo: sem cantos, os tais onde os fiéis de altíssima estaleca foram sediados, o mundo redondo deixando-os do lado de fora.

Ora, meus caros, a realidade é então essa: o limite (salvo raríssimas exceções) está por todo o lado; está por todo o lado a imperfeição, o pecado; estão por todo o lado as telhas de vidro, as brechas, as debilidades.

E agora o que nos resta não é o dedo justiceiro; a mania das grandezas; o julgar os outros; o falar de cima da burra; o colocarmo-nos asas enquanto metemos na fogueira o vizinho de cima e o de baixo, a colega de trabalho e o homem do talho, o namorado da Micas e o afilhado da Zefa.

Temos, antes, que nos auxiliar. Que dar as mãos. Que tentar a correção fraterna. Que abundar em compreensão, em tolerância, em paciência, em misericórdia. Tal como Deus é lento na ira e rico em misericórdia, assim devemos ser. Tal como Deus é clemente e compassivo, assim nos teremos de construir.

Ajudemo-nos. Ajudemo-nos a corrigi defeitos. Ajudemo-nos a crescer na virtude. Mais do que destroçar com palavas ou atitudes, sejamos marcas positivas e incentivos de crescimento nas vidas uns dos outros.

No final dará Deus a cada um o que lhe pertence. E oxalá que o destino não seja para nós o fogo, mas o celeiro onde o trigo se guarda, para depois servir de alimento na mesa farta e feliz do reino dos céus.

 

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

 

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