Três viagens pelo preço de uma

Três viagens pelo preço de uma

Venha comigo, amigo leitor. Proponho-lhe três viagens. Pegue na mochila e na alma. Venha descobrir. Venha conhecer. Vamos aprender.

 

Comecemos pelo Porto. Visitei, há poucos dias, a Sinagoga Kadoorie-Mekor Haim, a maior sinagoga da Península Ibérica e uma das maiores da Europa (a maior é a de Budapeste, na Hungria, que consegue albergar mais de 3 000 pessoas). Fui acompanhado por um grupo e guiado na visita por um simpático judeu, que do judaísmo quase tudo explicou, com graça e enlevo. A um dado passo recordou-nos, a mim e ao grupo, a razão pela qual os judeus, quando leem a Torá, quando rezam, nunca estão parados. Normalmente fazem com a cabeça um movimento que sugere a chama de uma vela acesa sempre em oscilação leve. Assim se mantêm mais atentos, mais participativos, mais dinâmicos – explicava o nosso anfitrião.

Confesso que fui assaltado nessa altura por alguns maus pensamentos. Lembrei-me de quantos participam nas celebrações com cara de frete ou de funeral; dos que não respondem nem cantam, ou quase não se fazem ouvir; dos abúlicos, apáticos, insípidos; dos que na Igreja só conhecem a porta do fundo ou os bancos que lhe estão próximos…

Sempre ativos, sempre atentos, sempre dinâmicos, sempre animados e diligentes no culto a Deus… assim se mostram os homens da Torá. Teremos algo a aprender com eles?!

 

A segunda viagem leva-nos a Vila Nova de Gaia. Aí visitei, não há muito, a Casa-Museu Teixeira Lopes, onde se expõem algumas das obras desse famoso escultor, nascido a finais do século XIX, artista de projeção nacional e internacional, um dos maiores escultores portugueses de todos os tempos. Por entre as suas obras famosas contam-se o monumento a D. Pedro V, na tripeira Praça da Batalha e a Senhora das Graças da Igreja de S. Mamede de Ribatua, terra a que se sentia ligado por de lá serem naturais os seus progenitores.

Nesta Casa-Museu Teixeira Lopes uma peça me chamou particularmente a atenção: Nossa Senhora de Fátima, concebida para o concurso que tentava encontrar a melhor representação da Senhora que pousou sobre a azinheira, à vista dos pastorinhos. A escultura não ganhou o concurso. Mas é muito bonita. Toda branca e menos hierática que a que acabou por ser escolhida, representa Nossa Senhora com o joelho esquerdo um pouco fletido e o tronco inclinado para a frente, dobrado sobre a humanidade. O rosto também se volta para nós. Os olhos envolvem-nos. As mãos, unidas e projetadas para diante, não estão à altura do peito, antes parecem vir ao encontro das nossas. Tudo é proximidade, desejo de encontro, presença envolvente e protetora.

Assim queremos sentir Nossa Senhora. Assim queremos que todos a sintam. Assim deseja ela estar na nossa vida: atenta, solícita, próxima. A ver-nos. A escutar-nos. A velar por nós.

Obrigado, Teixeira Lopes, por esta dádiva artística. Nós gostamos desta Mãe que nos estende os braços, nos contempla e quer estar sempre connosco!

 

O terceiro passeio é um pouco maior, a Barcelona. Vamos contemplar a torre de Jesus Cristo, ainda em construção, obra que deverá concluir-se em junho do presente ano, exatamente no mês em que se celebra o centenário de António Gaudí, o arquiteto que enche de orgulho todos os barceloneses. Essa torre é a mais alta e a mais central das dezoito que integram a Basílica da Sagrada Família.

Em Gaudí, todos sublinham a tenacidade, a intrépida esperança (no meio de tantos contratempos que teve de enfrentar), a dedicação extrema à Basílica (gastou nela 31 anos de vida), a humildade e docilidade ao Espírito, o testemunho de pobreza evangélica. Morreu atropelado por um elétrico. Desfigurado e singelamente vestido, confundiram-no com um mendigo. Não levava consigo qualquer identificação; apenas e só, no bolso, uma Bíblia. Barcelona, sabendo da sua partida para a casa do Pai, parou inteira para o chorar.

Mas o que quero realçar desta torre ideada pelo “arquiteto de Deus” é simplesmente isto: ela eleva-nos o olhar até aos 172,5 metros. E esta medida é propositada. Gaudí não queria que ela fosse mais alta que a colina barcelonesa de Montjuic, pois que no entender do artista a obra de Deus é sempre maior que a obra humana. Então a Basílica não poderia ficar mais alta que a colina.

Como são humildes os verdadeiramente grandes. Como são simples os de alma imensa. Deixam para os menos dotados a petulância, o orgulho, a mania de grandeza, os complexos de superioridade… Os que mais perto estão de Deus e melhor o imitam, pequenos se reconhecem. E deixam as peneiras para os que andam iludidos!

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

 

Três viagens pelo preço de uma

Venha comigo, amigo leitor. Proponho-lhe três viagens. Pegue na mochila e na alma. Venha descobrir. Venha conhecer. Vamos aprender.

 

Comecemos pelo Porto. Visitei, há poucos dias, a Sinagoga Kadoorie-Mekor Haim, a maior sinagoga da Península Ibérica e uma das maiores da Europa (a maior é a de Budapeste, na Hungria, que consegue albergar mais de 3 000 pessoas). Fui acompanhado por um grupo e guiado na visita por um simpático judeu, que do judaísmo quase tudo explicou, com graça e enlevo. A um dado passo recordou-nos, a mim e ao grupo, a razão pela qual os judeus, quando leem a Torá, quando rezam, nunca estão parados. Normalmente fazem com a cabeça um movimento que sugere a chama de uma vela acesa sempre em oscilação leve. Assim se mantêm mais atentos, mais participativos, mais dinâmicos – explicava o nosso anfitrião.

Confesso que fui assaltado nessa altura por alguns maus pensamentos. Lembrei-me de quantos participam nas celebrações com cara de frete ou de funeral; dos que não respondem nem cantam, ou quase não se fazem ouvir; dos abúlicos, apáticos, insípidos; dos que na Igreja só conhecem a porta do fundo ou os bancos que lhe estão próximos…

Sempre ativos, sempre atentos, sempre dinâmicos, sempre animados e diligentes no culto a Deus… assim se mostram os homens da Torá. Teremos algo a aprender com eles?!

 

A segunda viagem leva-nos a Vila Nova de Gaia. Aí visitei, não há muito, a Casa-Museu Teixeira Lopes, onde se expõem algumas das obras desse famoso escultor, nascido a finais do século XIX, artista de projeção nacional e internacional, um dos maiores escultores portugueses de todos os tempos. Por entre as suas obras famosas contam-se o monumento a D. Pedro V, na tripeira Praça da Batalha e a Senhora das Graças da Igreja de S. Mamede de Ribatua, terra a que se sentia ligado por de lá serem naturais os seus progenitores.

Nesta Casa-Museu Teixeira Lopes uma peça me chamou particularmente a atenção: Nossa Senhora de Fátima, concebida para o concurso que tentava encontrar a melhor representação da Senhora que pousou sobre a azinheira, à vista dos pastorinhos. A escultura não ganhou o concurso. Mas é muito bonita. Toda branca e menos hierática que a que acabou por ser escolhida, representa Nossa Senhora com o joelho esquerdo um pouco fletido e o tronco inclinado para a frente, dobrado sobre a humanidade. O rosto também se volta para nós. Os olhos envolvem-nos. As mãos, unidas e projetadas para diante, não estão à altura do peito, antes parecem vir ao encontro das nossas. Tudo é proximidade, desejo de encontro, presença envolvente e protetora.

Assim queremos sentir Nossa Senhora. Assim queremos que todos a sintam. Assim deseja ela estar na nossa vida: atenta, solícita, próxima. A ver-nos. A escutar-nos. A velar por nós.

Obrigado, Teixeira Lopes, por esta dádiva artística. Nós gostamos desta Mãe que nos estende os braços, nos contempla e quer estar sempre connosco!

 

O terceiro passeio é um pouco maior, a Barcelona. Vamos contemplar a torre de Jesus Cristo, ainda em construção, obra que deverá concluir-se em junho do presente ano, exatamente no mês em que se celebra o centenário de António Gaudí, o arquiteto que enche de orgulho todos os barceloneses. Essa torre é a mais alta e a mais central das dezoito que integram a Basílica da Sagrada Família.

Em Gaudí, todos sublinham a tenacidade, a intrépida esperança (no meio de tantos contratempos que teve de enfrentar), a dedicação extrema à Basílica (gastou nela 31 anos de vida), a humildade e docilidade ao Espírito, o testemunho de pobreza evangélica. Morreu atropelado por um elétrico. Desfigurado e singelamente vestido, confundiram-no com um mendigo. Não levava consigo qualquer identificação; apenas e só, no bolso, uma Bíblia. Barcelona, sabendo da sua partida para a casa do Pai, parou inteira para o chorar.

Mas o que quero realçar desta torre ideada pelo “arquiteto de Deus” é simplesmente isto: ela eleva-nos o olhar até aos 172,5 metros. E esta medida é propositada. Gaudí não queria que ela fosse mais alta que a colina barcelonesa de Montjuic, pois que no entender do artista a obra de Deus é sempre maior que a obra humana. Então a Basílica não poderia ficar mais alta que a colina.

Como são humildes os verdadeiramente grandes. Como são simples os de alma imensa. Deixam para os menos dotados a petulância, o orgulho, a mania de grandeza, os complexos de superioridade… Os que mais perto estão de Deus e melhor o imitam, pequenos se reconhecem. E deixam as peneiras para os que andam iludidos!

 

Cón. José Paulo Leite de Abreu

Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro

 

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