O SAMEIRO NA HISTÓRIA

Cronologia

  • Em 14 de Junho de 1863 foi lançada a primeira pedra para um monumento em honra da Imaculada Conceição de Maria no monte Sameiro.
  • Em 29 de Agosto de 1869 foi benzido e inaugurado o monumento, com imagem de autoria de Emídio Carlos Amatucci.
  • Em 31 de Agosto de 1873 iniciou-se a construção de uma capela comemorativa do Concílio Vaticano I e do dogma da infabilidade pontifícia.
  • Em 8 de Agosto de 1877 foram criados os estatutos da Confraria da Imaculada Conceição do Monte Sameiro.
  • Em 7 de Agosto de 1878, chegou a Braga a imagem de Nossa Senhora do Sameiro, obra do escultor italiano Eugénio Maccagnani (1852-1930).
  • Em 29 de Agosto de 1880, a imagem foi conduzida solenemente até ao Sameiro e entronizada na capela, que tinha sido sagrada no dia anterior.
  • Em 9 de Janeiro de 1883, o monumento foi destruído por causa desconhecida – um raio, segundo uns, um temporal aliado a má construção, segundo outros, um rebentamento criminoso, segundo outros ainda.
  • Em 28 de Julho de 1884 iniciou-se a construção de um novo monumento.
  • Em 9 de Maio de 1886 foi inaugurado o novo monumento.
  • Em 31 de Agosto de 1890 foi lançada a primeira pedra do actual Santuário.
  • Em 12 de Julho de 1936, inicia-se a construção da cúpula.
  • Em 12 de Junho de 1941, foi a sagração do altar do Santuário.
  • Em 7 de Junho de 1953 foi inaugurado o cruzeiro monumental, obra do arquitecto David Moreira da Silva.
  • Em 13 de Junho de 1954 foram inaugurados os monumentos ao sagrado coração de Jesus, e ao Papa Pio IX.
  • Em 17 de Junho de 1979 foi inaugurada a Cripta, sob o templo inicial.
  • Em 15 de Maio de 1982, teve a visita do Papa João Paulo II.
  • Em 3 de Junho de 1984, foi inaugurada a estátua do Papa João Paulo II.
  • Em 8 de Dezembro de 2004, na comemoração do 150º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, o Papa João Paulo II através de um seu delegado do Vaticano, Eugênio Sales, distingue o Santuário do Sameiro com a Rosa de Ouro.

 

Paulo Abreu

Centro Apostólico do Sameiro,

8 de Outubro de 2004

 

                       Não é apenas um dos braços do triângulo turístico bracarense, ainda que puros sejam os ares, bucólica a paisagem, admirável a panorâmica… É verdade que inspira paz, inebria pela beleza, gera sensações de bonança interior.

            O Sameiro é mais que isso. De facto, também nos fala de devoção, de doutrina, de fé. No feliz dizer de alguém é como que um novo Cenáculo – a Mãe com os filhos à volta, confortando-os, incutindo-lhes ânimo, sentando-os à mesa com Jesus.

            Mas o Sameiro é ainda muito mais do que isso: é vida – a de cada peregrino que escala o monte -, com o que isso significa de pedidos, desejos, dores, lutas, dramas, também acções de graças, louvores, preces atendidas, lenitivos ou curas, bênçãos…

            Muitos têm tentado contá-lo: n’ O Sameiro, que evoluiu para Ecos do Sameiro, venerando e vetusto jornal, com quase oitenta anos de idade, mas ainda circulando pelo mundo e trazendo até nós o mundo; na Poesia do Sameiro, compilada e anotada por Silva Araújo, sob o patrocínio editorial da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro; n’ O Sameiro, Solar da Imaculada, obra escrita por um benemérito servidor da Imaculada Conceição, o Cón. José Borges; n’ A História do Sameiro – um cozinhado de simplicidade, rigor, maestria e devoção do P. Fernando Leite; nos documentos e pronunciamentos da S. Sé, dos Prelados, da Confraria… Enfim, um mare magnum, capaz de embaraçar quem tem um público pela frente.

            Percebe-se, de quanto dito, que a exaustividade na abordagem do tema que me foi proposto está fora de planos. Não irei dizer tudo. Antes, tenho a certeza de que poderei dizer muito pouco. Por outro lado, tentarei evitar a mera repetição do que outros já escreveram ou disseram, pelo menos em termos de arrumação de ideias.

            Assim, focarei o Sameiro em três perspectivas. Em primeiro lugar, como Lausperene Mariano, ou romaria contínua e orante de pessoas, grupos, associações, movimentos de apostolado, instituições…

            Em segundo lugar, como Salão Nobre, ou espaço celebrativo dos acontecimentos mais marcantes, quer em termos de igreja bracarense – à qual pertencemos -, quer mesmo em termos de igreja nacional e universal.

            Por fim, como Púlpito, a doutrina jorrando pelas palavras, pelos testemunhos, pela escrita, pela arte…

            Antes da abordagem de cada um dos item’s, tentarei uma indispensável contextualização, que se prende com a figura e o tempo em que viveu o Papa Pio IX. Sem isso, não se entenderia o que nos aparece edificado, nem compreenderíamos o alcance da mensagem que o Sameiro perpetua no tempo.

  1. O Papa Pio IX

            Desde os inícios do seu pontificado que Pio IX se esforça por promover uma restauração geral da sociedade cristã, tão assolada pelos ares liberais, laicistas, racionalistas, materialistas, anti-clericais.

            Com esse intuito, o Papa proclama, em 1854, o dogma da Imaculada Conceição. Com o mesmo propósito publica a Encíclica Quanta Cura e o anexo Syllabus. Com igual intuito, convoca um Concílio, o primeiro que se realiza no Vaticano.

            Estes três acontecimentos (dogma, Quanta Cura – Syllabus e Concílio Vaticano I) deveriam, pois, destronar o racionalismo teórico e prático do século XIX, defender a ordem sobrenatural, numa palavra, deveriam ser para o racionalismo o que o Concílio de Trento fora para o Protestantismo.

            Quem lê a Encíclica Quanta Cura não tem dúvidas sobre o que acabo de afirmar: ela é dura no tom e negativa na visão que apresenta da sociedade oitocentista (chama-lhe até “tristíssima época”). Menos dúvidas tem ainda quem lê o Syllabus: começa exactamente por defender a ordem sobrenatural, isto é, a existência de Deus, a Sua acção no mundo, a existência dos milagres, a firmeza dos dogmas, para passar à condenação do indiferentismo e latitudinarismo, combatendo depois o matrimónio civil, a moral laicista, o amoralismo económico, o jurisdicionalismo, a liberdade de culto e de consciência… Ficou para a história o anátema lançado sobre quem considera que o Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se com o mundo moderno… As dúvidas dissipam-se por completo quando recordamos os frutos do Concílio Vaticano I, verdadeiro monumento ao ultramontanismo, à autoridade pontifícia, à infalibilidade papal em matérias de fé e moral, dentro dos requisitos que se conhecem.

            Exageros à parte – cada época tem os seus – o certo é que o Papa Pio IX se mostra sólido na defesa da doutrina, enriquece-a com o dogma da Imaculada Conceição, recusa-se a aceitar uma sociedade positivista e míope (truncada na sua dimensão transcendente), defende a doutrina cristã e o influxo da crença e da ética na sociedade, fortalece a Igreja diante dos seus detractores, inspira segurança num tempo marcado pela perplexidade, pelo relativismo, pela descrença, pelo galicanismo, pelo anti-clericalismo, pelo endeusamento da razão em detrimento da fé.

            São estes os ventos que chegam a Braga. E que em Braga ganham morada. Muito por obra de um sacerdote, de coração profundamente mariano, o P. Martinho António Pereira da Silva. Por ele, perpetuar-se-á no Sameiro a devoção à Imaculada Conceição; recordar-se-á o dogma da infalibilidade pontifícia; e, sobretudo, as pegadas dos crentes continuarão a assegurar que Deus, na infinita bondade que o Seu coração simboliza, até a Mãe partilha connosco e que nós, os crentes, gostamos muito dela. 

  1. Lausperene Mariano

            Os primeiros “peregrinos” que o Sameiro conhece são os PP. Martinho António Pereira da Silva e Manuel Antunes dos Reis, este, Capelão-Mor do Real Santuário do Bom Jesus. Daqui partiram os dois sacerdotes, em jeito de passeio, monte acima, num certo dia do mês de Setembro de 1861.

            O que de mais aconteceu, pode ler-se, em belíssima descrição, na História do Sameiro:

            “O Padre Martinho, que não perdia ocasião de exaltar as glórias de Maria, descreve com entusiasmo os festejos realizados em Roma por ocasião da Definição Dogmática da Conceição Imaculada de Maria. E vai narrando ao colega amigo a história desse dogma. […] Refere-se aos festejos que por sua iniciativa se tinham realizado em Braga, à raiz da Definição Dogmática da Imaculada Conceição na Igreja dos Remédios e mais tarde na Igreja de S. Paulo, de que ele fora pregador.

            A Roma portuguesa mostrava-se digna emula da Roma eterna. Nesta, porém, as solenidades não se extinguiram com as aclamações de um dia. Devia ficar alguma coisa de sensível a perpetuar pelos séculos fora o triunfo de Maria Imaculada e a memória da Definição Dogmática.

            […] Naquela famosa tarde, ficaram marcados os destinos do Sameiro, que viria a ser, com o rodar dos tempos, um dos grandes Santuários de todo o Mundo. Portugal inteiro haveria de acudir ali em contínuas e piedosas romagens, particulares ou colectivas, justificando assim o seu título de terra consagrada à Imaculada Conceição de Maria”[1].

            Dois anos volvidos, os romeiros são já muitos mais. Procede-se à bênção da primeira pedra (a 14 de Junho de 1863). Para além de membros da Comissão Promotora, acorre o povo das aldeias e da cidade. O Deão da Catedral, D. Luís do Pilar Pereira de Castro, em representação do Arcebispo Primaz, preside à celebração. O clero entoa salmos. Ao descer do monte, a festa prossegue no Bom Jesus, com missa cantada e entoação da Ladainha de Nossa Senhora.

            A escultura da Imaculada, arrancada a um bloco de mármore pelo escultor Emídio Carlos Amatucci, seria benzida no Sameiro no dia 29 de Agosto de 1869, festa do Imaculado Coração de Maria. Preside o Arcebispo D. José Joaquim de Azevedo e Moura. Estão presentes alguns capitulares, os membros da Comissão Promotora do monumento, muitos sacerdotes, muito povo. Está também presente o Santo Padre, através de um telegrama, concedendo “com efusão do seu coração” a bênção à cidade de Braga e a toda a Nação Portuguesa. “Esta feliz novidade, naquele tempo pouco comum - comenta o P. Fernando Leite na História do Sameiro – encheu de alegria todos os presentes”[2]. E em Ecos do Sameiro lê-se:

            “Nessa radiante manhã de 29 de Agosto de 1869 já N. Senhora do Sameiro, lá do alto da sua monumental morada, recebia, pela primeira vez, as piedosas homenagens d’uma grande multidão de cristãos, que em tôrno do seu magestoso pedestal lhe dirigia, em hossanas de Fé ardente, fervorosos cânticos de louvor.

            A partir d’esta gloriosa data, no rápido decorrer d’este meio seculo, as gerações que passam vão assistindo, consoladoramente estupefactas, á completa transformação do panorámico Monte Sameiro, então solitário e êrmo, no actual Jardim espiritual de Maria […]”[3].

  

            Os caminhos para o Sameiro, de facto, não mais se fechariam. Nem os reveses (como a destruição do monumento na noite de 9 de Janeiro de 1883) provocaram esmorecimento nos devotos. Três anos e meio após o derrube, um novo monumento lá aparece, com a estátua da Imaculada que ainda hoje contemplamos, benzida agora pelo Arcebispo D. António de Freitas Honorato, na presença do povo, que agradece à Mãe ter sido o nosso país preservado da epidemia da cólera-morbo que no ano anterior assolara a Europa e dizimara milhões de vítimas.

            Mas já antes da inauguração deste último monumento os devotos tinham escalado a montanha, no dia 29 de Agosto de 1880. Nesse dia, uma belíssima escultura da Virgem Imaculada, benzida pelo Papa Pio IX e trabalhada em Roma por Eugénio Maocegnali, fora trasladada da Igreja do Pópulo, onde permanecera dois anos, para a nova Capela recém-construída no Sameiro, perpetuadora da memória do Concílio Vaticano I. Os cronistas não se poupam ao descreverem o evento: falam de emoção à saída da cidade, de brilho, de entusiasmo, de uma procissão imponente repleta de figurados, de aluviões de fiéis, de foguetes e muita música.

            Tornando-se pequena a capela a que aludimos, tantos os peregrinos que à Virgem do Sameiro acorriam, em breve se colocará a pedra do templo que chegou até nós (31 de Agosto de 1890).

            Anos mais tarde, em 1904 – estamos em pleno centenário – Nossa Senhora receberia da generosidade das mulheres de Portugal, com destaque para a Rainha D. Amélia, a coroa que ainda hoje ostenta. O povo, mais uma vez, acorre (fala-se em 300.000 devotos). Sua Santidade o Papa Pio X marca presença, através do Núncio José Macchi. Também o Patriarca de Lisboa, Cardeal D. José Sebastião Neto. E todo o episcopado. “Vê-se, pois, que D. Manuel Baptista da Cunha [Arcebispo de Braga] estava satisfeito – lê-se nos Fastos Episcopaes…-, e podia estar; pois esta comemoração foi a sua corôa de gloria”[4]. Para a história ficará o dia 12 de Junho como festa litúrgica de Nossa Senhora do Sameiro.  

            As datas, as comemorações vão abrindo sulcos, vão criando rotinas devocionais. Por ano, os fiéis habituar-se-ão a três peregrinações, fixas no mês, variáveis no dia: em Junho, em Agosto, em Dezembro[5].

            Mas os devotos não escalam o Sameiro apenas quando a pedra ou a arte se agigantam, ou nas romarias calendarizadas. Também o sobem para transportarem à Mãe as suas colectividades, instituições, associações, movimentos de apostolado, paróquias, arciprestados…

            Bastará uma passagem à vol d’oiseau pelo Ecos do Sameiro para comprovarmos isto mesmo. Assim, e à laia de exemplo:

            - em 1908, dá-se a peregrinação das Congregações Marianas Portuguesas, masculinas e femininas, identificadas pelos seus estandartes;

            - em 1913, peregrinação de Centros da Juventude Católica;

            - em 1926, peregrinação da mocidade académica; também da Oficina-Escola de S. João de Deus, e das crianças da catequese de Fafe;

            - em 1927, da Fábrica de Saboaria e Perfumaria Confiança, dos alunos do Grande Colégio Nun’Alvares de La Guardia, do Asilo D. Pedro V, do Colégio das Missões do Espírito Santo, das Filhas de Maria de Braga, da empresa Ferreira Capa, de 27 freguesias do arciprestado de Braga, da Escola Académica;

            - em 1833, do Curso Teológico do Porto;

            - em 1836, dos Passionistas de Braga e Viana do Castelo, dos Seminários de Braga, das Conferências de S. Vicente de Paula, da Juventude Católica Feminina, do Colégio de Nossa Senhora da Conceição de Guimarães, etc[6].

            Não virá ao caso elaborarmos aqui uma enorme lista de presenças devotas no monte da Virgem Imaculada. Valerá, entretanto, a pena destacarmos uma notícia que aparece em Ecos do Sameiro exactamente por estas palavras:

            “O Chefe do Estado Espanhol, Generalíssimo Franco, e o Snr. Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar, visitaram o Santuário de Nossa Senhora do Sameiro.

            Vinham acompanhados de alguns Ministros dos dois países e outras altas individualidades.

            […] Ajoelharam e oraram recolhidamente junto do altar da Padroeira de Portugal, cuja magnificência admiraram de seguida. Estes dois Chefes máximos personificam as duas grandes nações católicas e irmãs, que de novo se encontraram no respeito pelos eternos princípios do Evangelho, tornando-se um exemplo digno de imitação”[7].

            Os tempos vão mudando. Também os hábitos, os gostos, as representações sociais… Mas o Sameiro continua a cativar. E até nos surpreende com notícias como esta:

            “Cerca de oito centenas de motards, mais os/as acompanhantes, concentraram-se neste Santuário do Sameiro, no dia 25 de Fevereiro [de 2001], Domingo “Gordo”, respondendo a uma iniciativa do Moto Clube de Braga.

            Após a concentração, desfile e estacionamento das motos, ao longo da Avenida Padre Martinho, os participantes dirigiram-se para o Santuário, onde, pelas 12h00, foi celebrada a <missa dos motards>”[8]

            Só que nem tudo é notícia, fotografia ou ruído. E o contingente maior da peregrinação até é constituído por aqueles que num qualquer dia da semana, ou num tranquilo domingo de passeata,  procuram o ar puro, um pouco de paz e uma conversa tranquila e meiga com a Mãe. Porque há sempre qualquer coisa para lhe lembrar, qualquer dor a dividir, qualquer assunto ou pessoa a confiar, qualquer bênção ou protecção a pedir.

            E é nesse mármore da fé, nesse ouro do afecto, nessa cúmplice intimidade do amor filial, nessa tertúlia humilde e confiante, que o Sameiro se vai consolidando como jardim espiritual, como consolo dos crentes, como… “Lausperene mariano”.   

  1. Salão Nobre

            Anunciamos a abordagem do Sameiro numa segunda perspectiva, a saber, como “Salão Nobre”, palco dos mais marcantes acontecimentos eclesiásticos, quer de cunho arquidiocesano, quer ao nível da Igreja portuguesa e até universal. Tentemos, então, este novo percurso.

            A memória leva-nos de imediato ao ano de 1894, altura em que se celebra o cinquentenário do Apostolado da Oração. Inserida nessas comemorações, a peregrinação ao Sameiro acontece no dia 20 de Maio. Nela se incorporam

            “abundante Clero, Seminarios de Braga e Guimarães, Filhas de Maria de Lisbôa, Officinas de S. José do Porto e Braga, Conferências de S. Vicente de Paulo, muitos Collegios, numerosos grupos de camponezas Filhas de Maria e membros do Apostolado, n’uma palavra, calculou-se o número de peregrinos, que n’este dia foram ao Sámeiro, em mais de 100:000!”[9].

            Durante a missa campal, na pregação, o Bispo de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina, assim mostrava o seu entusiasmo:

            “Salvé, povo de Braga e do Minho! Só nesta Cidade que é o baluarte da fé portuguesa, só nesta província, que é a vida e a força do País e da alma nacional, podia realizar-se esta grandíssima, esta imponentíssima manifestação religiosa, este espectáculo surpreendente, maravilhoso, e ainda não visto em Portugal”[10].

           

            O primeiro Congresso Eucarístico Nacional ocorreria no ano da graça de 1924. Não lhe poderia faltar, como corolário, a peregrinação ao Sameiro, calendarizada para o dia 6 de Julho, altura em que se benze também a primeira pedra do monumento ao Coração Eucarístico de Jesus. E o que aconteceu então?! –

            “Desde os primeiros alvores da manhã dêsse domingo inolvidável, começaram a afluir ao Bom Jesus do Monte as inumeráveis multidões, que de todo o país chegaram a esta cidade, para receber a homenagem viva e ardente à Sagrada Eucaristia.

            Organizou-se, pois, no famoso santuário o cortejo triunfal, […] e lentamente seguiu para o Monte Sameiro essa incomparável assembleia de crentes, no meio do mais edificante e religioso entusiasmo.

            […] Não eram só os quatro centos mil peregrinos do Sameiro que pulsavam consonantemente na mesma manifestação de amor a Jesus Cristo: era todo o Portugal, representado pelos seus Bispos, que confessava ali o seu amor, a sua ternura, a sua dedicação, e proclamava, nos seus gritos entusiásticos, nas suas aclamações sublimes, nos seus ardentes votos, nas palavras, nos vivas, no agitar de lenços, […] nos transportes de júbilo, a Realeza infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo!”[11].      

           

            Dois anos volvidos, as atenções centram-se de novo na Imaculada Conceição, desta feita celebrando-se o Primeiro Congresso Nacional Mariano, que contou com a presidência do Cardeal Legado D. António Mendes Belo. A Virgem do Sameiro desceu à cidade, para regressar ao seu trono no dia 30 de Maio. E nada como a escrita entusiasta de um cronista da época para vibrarmos com o que se passou:

            “Ninguém ficou insensível, tudo se manifestou. Os manipuladores e pospontadeiras de calçado, as vendedeiras de aves e de peixe, as crianças de servir, chauffeurs e bombeiros, comerciantes, industriais e negociantes; e tantíssimas outras entidades, famílias e pessoas, aos pés de Nossa Senhora do Sameiro vieram depôr lindos ramos de flôres.

            […] E n’um cortejo triunfal, com 14 bispos, 200 bandeiras, 250 mil peregrinos, chegou Ela de novo ao cimo d’essa Montanha Sagrada; e por entre lagrimas e sorrizos, canticos e orações entrou, delirantemente aclamada, no seu sumptuoso Sanctuário”[12]

             

            O Apostolado da Oração volta ao Sameiro aquando do seu Primeiro Congresso Nacional, que contou com a presidência do Cardeal Legado D. Manuel Gonçalves Cerejeira. A peregrinação dá-se no dia 13 de Julho, decorria o ano 1930. Terá sido uma impressionante manifestação de fé, a acreditar-se no que se lê, quer no livro das Actas do Congresso[13], quer no Ecos do Sameiro. Fiquemo-nos com a descrição deste último. A um dado passo refere:

            “Excetuando a célebre Peregrinação das festas jubilares da Coroação de Nossa Senhora em 1904, no Sameiro nunca se juntou tanta gente como no passado dia 13 de Julho.

            […] Eram 7 horas de domingo, quando o Senhor Arcebispo Primaz, o ditoso promotor do Congresso, chega á Igreja do Pópulo para dar início á Peregrinação. O vasto Campo da Vinha era então um mar de gente a agitar-se para tomar parte no piedoso e imponente cortejo a caminho do Sameiro.

            […] Mais uma hora, mais duas e três horas, e aparece ao cimo do Bom Jesus do Monte a avançada desse exército formidável de almas, valentes soldados de Cristo Rei, que se vem dirigindo dentro duma nuvem de pó, […] para este cantinho do céu, onde a Mãe de Deus tem o seu trono. Imagine quem puder a sublimidade dêste espectáculo religioso!”[14].      

            Os Congressos prosseguiriam. Também as peregrinações ao cima da Montanha, ao encontro da Imaculada. Assim sucedeu em 1932, no Primeiro Congresso Catequístico Nacional, que de novo contou com a presidência do Cardeal Legado D. Manuel Gonçalves Cerejeira; e em 1954, no Segundo Congresso Mariano Nacional, com igual presidência, mas celebrando-se agora o centenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição.  

            Deste último Congresso saíram publicadas as Actas em corpulento volume. Fala-se em mais de 500.000 peregrinos, naquele domingo dia 13 de Junho. A descrição da romaria – de que reproduzimos aqui um pequeno excerto – impressiona:

            “[…] começavam a encher as ruas da cidade, em direcção ao Sameiro, milhares de peregrinos, vindos em combóios especiais, automóveis, caminhetas, etc.

            De dez em dez minutos, desde as 2 da manhã, em diante, vão pejados de gente, que sobe em direcção ao Templo, os eléctricos.

            E das 7 da manhã às 11 horas passaram em massa compacta milhares de peregrinos.

            Muita gente veio a pé.

            Em Guimarães, porque já não havia transportes, tomaram, a pé, o caminho do Sameiro milhares de peregrinos, acompanhados pelos seus rev.os párocos.

            À estação do caminho de ferro chegaram 15 comboios especiais com 20.000 peregrinos, além dos comboios ordinários, que todos fizeram desdobramento.

            Embora ainda sem confirmação oficial, anuncia-se haverem chegado 3.000 caminhetas e 5 000 automóveis.

            […] De toda a parte do país se vêem peregrinos, desde Faro a Melgaço, de Bragança a Beja.

            Centenas de sacerdotes e de religiosas imprimem a este ambiente de piedade assinalado relevo, que as fardas dos escuteiros, dos soldados e da Mocidade Portuguesa – 1.000 filiados se encontravam no Sameiro – Masculina e Feminina mais avultam.

            As representações da A[cção] C[atólica] são numerosíssimas e os estandartes dão a este espectáculo religioso grandeza especial e notável relevo”[15].

            Sobre o sucedido, destaque merece igualmente o testemunho do Núncio Apostólico, Mons. Fernando Cento, exarado por escrito. Comentou:

            “Jamais se apagará da minha lembrança a peregrinação que tão esplendidamente coroou as jornadas triunfais do Congresso Mariano Nacional de Braga.

            Que imensa multidão acorreu ao monumental Santuário do Sameiro! Que fervor e entusiasmo! Que memorável manifestação de fé e de piedade! Uma vez mais, Portugal demonstrou, com a eloquência incontestável dos factos, que Maria, depois de Cristo, é o seu grande amor.

            O momento solene em que a sua imagem chegou ao recinto, foi daqueles que fazem estremecer a alma toda e não se podem esquecer […]”[16].         

            Ao elenco dos Congressos (e peregrinações) teremos ainda que acrescentar o Terceiro Congresso Nacional do Apostolado da Oração, ocorrido em 1957 e agraciado com uma mensagem do Papa Pio XII; o Congresso Mariano comemorativo do centenário do Sameiro (no ano de 1964), saudado pelo Papa Paulo VI (que distinguirá o Santuário com o título de Basílica), pelo Núncio Apostólico (Mons. Furstemberg), pelo Arcebispo de Santiago de Compostela (D. José Queiroga y Palácios), até pelo Presidente da República, o Almirante Américo Tomás…[17]

            O último dos Congressos, o Terceiro Eucarístico Nacional, ocorreu já nos nossos dias, entre 3 a 6 de Junho de 1999, o Papa João Paulo II a fazer-se representar pelo Cardeal Roger Etchegaray. E mais uma vez o Sameiro viveu momentos de glória[18].

            Esta alusão ao Sameiro como “Salão Nobre” ou espaço celebrativo de acontecimentos marcantes, impõe-nos ainda a recordação de dois outros momentos: um, o das comemorações do aparecimento de Nossa Senhora em Lourdes; outro, o da visita do Santo Padre João Paulo II.

            O primeiro centenário das aparições de Lourdes celebrou-se entre os dias 31 de Maio e 1 de Junho do ano 1958. Contou com as presenças do Cardeal Patriarca de Lisboa (D. Manuel Gonçalves Cerejeira), do Núncio Apostólico (D. Fernando Cento), do bispo de Tarbes e Lourdes (D. Pierre Marie Théas), de numerosos bispos e, como sempre, de numeroso público, concretamente no dia 1 de Junho, altura em que se realizou a peregrinação. O jornal Ecos do Sameiro, em grande manchete, fala de “máximo esplendor, grandiosidade e imponência”[19].

            Quanto à vinda do Papa João Paulo II ao Sameiro, ocorreu no dia 15 de Maio de 1982. Um dia inesquecível. Em vez de telegramas ou mensagens, é o próprio Papa a vir ao nosso encontro e a rezar connosco.

  1. Eurico Dias Nogueira, então Arcebispo de Braga, escreveria: “Jamais poderão apagar-se as imagens e extinguir-se os ecos dos gestos e palavras do Santo Padre junto de nós. A data de 15 de Maio de 1982 ficará para sempre assinalada, nos fastos do Sameiro, como o seu dia mais alto”. E acrescentava: “A Confraria do Sameiro, com o apoio jamais regateado da devota e agradecida gente do Norte, erguerá em breve um monumento singelo mas condigno ao Papa que veio até nós e a todos conquistou: Sua Santidade João Paulo II”[20].

            Longo vai o desfile dos episódios que têm feito do Sameiro um cenário de eleição. Mas o quadro não ficaria completo sem um outro tipo de referências, ainda que exaradas de um modo sumário.

            Na verdade, no Sameiro se têm realizado algumas sagrações episcopais. Assim, D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva foi sagrado no dia 16 de Junho de 1979; D. Joaquim Gonçalves, no dia 8 de Outubro de 1981; D. Manuel Monteiro de Castro, no dia 23 de Março de 1985; no mesmo ano, mas no dia 28 de Abril, D. Carlos Francisco Martins Pinheiro; e no dia 3 de Janeiro de 1988, D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga.

            E também no Sameiro se têm realizado muitas ordenações diaconais e presbiterais, mormente depois da construção da cripta.

            Sintoma claro da simpatia popular para com o Sameiro é o facto de ser um dos locais preferidos para os momentos mais marcantes da vida das pessoas e das famílias, concretamente, para a celebração de baptizados e casamentos. E também de Jubileus de casamento. A comprovar isso mesmo, registem-se os seguintes dados: entre os anos 1945 e 2003, celebraram-se 3.053 baptizados, sendo que o ano de maior afluência foi o de 1979, com 138 baptizados; em igual período de tempo, ou seja, entre 1945 e 2003, celebraram-se – imagine-se – 16.065 casamentos, sendo o ano de maior afluência o de 1975 (com 469 casamentos) e o de menor afluência o de 2003 (com apenas 98 casamentos). Quanto a jubileus de casamento, os dados de que dispomos reportam-se somente ao período 2000 a 2003: celebraram-se 588[21]. Considere-se ainda que, nas contagens apresentadas, não se pesaram os sacramentos celebrados na Capela do Centro Apostólico. 

            De assinalar, por fim, que desde o ano 1995 até aos nossos dias, milhares de estudantes das nossas universidades têm subido ao Monte para receberem a chamada “bênção dos finalistas”. Uma festa inesquecível!... O preto a não significar luto, para nos falar de festa, de alegria por um curso terminado, de gratidão por objectivos alcançados, de protecção e bênçãos para um futuro tantas vezes envolto na incerteza…

            Enfim, o Sameiro tem sido, continua a ser o Salão Nobre, o espaço celebrativo de grandes acontecimentos, pessoais e familiares, diocesanos e nacionais, europeus ou universais.

           

  1. Púlpito

            Resta-nos a abordagem do Sameiro na última das perspectivas enunciadas, ou seja, como púlpito, como anúncio, jorrando este pelas palavras e pela escrita, pelos testemunhos e pela arte.

            Comecemos pela arte.

            Quem se abeira do santuário, depara-se com alguns monumentos alusivos a figuras ímpares da história da Igreja. E certamente não deixará de interrogar-se: de quem se trata? Por que razão está aqui? Na resposta, ficará o peregrino a conhecer S. Cirilo de Alexandria, situando-o num período de definição da doutrina, cabendo-lhe a intrépida defesa do título de “Mãe de Deus” para Nossa Senhora; ficará certamente a relembrar a vida e ensinamentos de Santo António de Lisboa, eminente pregador, insigne jurista, companheiro de Francisco de Assis, apóstolo incansável, filho querido da Imaculada, glória de Portugal, admiração para os italianos que, por antonomásia, lhe chamavam “o santo”; ficará a recordar-se de S. Bernardo de Claraval, mariólogo medieval, que exalta Nossa Senhora como Mãe do Salvador, como habitáculo da Trindade, como Virgem e Imaculada, como âncora e estrela para os cristãos, como nossa advogada junto de Deus, como a nova Eva que trouxe o antídoto ao veneno da velha serpente; ficará a pensar em S.to Afonso Maria de Ligório, grande moralista, fundador da Congregação do Redentor que nos deixou consignada a sua devoção filial à Mãe de Deus na famosa obra Glórias de Maria.

            Quando entramos no Santuário, de novo percebemos que a arte fala, transmite, é, por si mesma, anúncio. Quem não se deslumbra com a beleza do sacrário todo em prata, centrando assim as atenções na presença real de Jesus na Eucaristia?! Quem não sente alívio e consolação, paz e ternura, confiança e serenidade contemplando a belíssima escultura da Senhora do Sameiro, a Virgem Imaculada?!

            Como púlpito se pode considerar também a cripta, de construção ainda recente. O visitante entra aí em contacto com os principais episódios da vida de Jesus e de Maria, através dos dez painéis da autoria de Querubim Lapa, onde se visualizam os mistérios gozosos e gloriosos do Rosário. Mas também aí o visitante conhece o percurso do Evangelho em terras longínquas, relembrando os nomes das Dioceses e Prelazias que os portugueses criaram e até onde Portugal levou o nome de Maria; e o visitante ainda se galvaniza ao ler um extracto dos Lusíadas, do nosso poeta Camões: “…E também as memórias gloriosas daqueles reis que andaram dilatando a Fé e o Império […] cantando espalharei por toda a parte”. E ainda se deleita e reza com uma quadra do P. Joaquim Alves, que ressoa devoção por estas palavras:

                                    “O Teu Filho deste ao mundo

                                    Virgem fonte de luz

                                    Mas depois foi Portugal

                                    Que ao mundo deu Jesus”.

            Por entre os testemunhos que no Sameiro se tornam “púlpito”, também a Casa das Estampas nos fala da devoção mariana do Papa João Paulo II: conserva e expõe o paramento com que o Papa celebrou no Sameiro, o círio pelo mesmo Papa oferecido, o solidéu deixado como recordação sobre o altar de Nossa Senhora. Mas também conserva a bandeira de Nossa Senhora do Sameiro benzida pelo Papa Pio XII na Basílica de S. Pedro a 1 de Novembro de 1954. E ainda uma escultura de S. Francisco Xavier, que os soldados do Minho servidores da pátria na Índia, entre os anos 1954-1957, quiseram ofertar à Mãe. Também uma espada do Marechal Gomes da Costa, oferecida durante o Congresso Mariano Nacional a 28 de Maio de 1926. E tantas outras peças, onde poderá faltar ou não o valor material, mas onde invariavelmente se sente e pulsa o amor à Virgem Imaculada.

            Não vem ao caso, dadas as limitações de espaço e tempo, rastrear o modo como o Sameiro, através da escrita, tem sido púlpito, anúncio, mensagem. Aliás, tivemos já oportunidade de aludir ao periódico que a Confraria do Sameiro edita – o Ecos do Sameiro -, e que leva bem longe a devoção mariana. Referimos igualmente a existência de publicações sobre a história do Sameiro. E até nos referimos a uma recolha de poesia, inspirada no amor filial à Mãe. Deixamos neste texto, mas em nota, a indicação de algo mais que sabemos ter sido publicado[22].

            Somando quanto temos vindo a dizer, aceitamos como pertinentes as palavras de D. Francisco Maria da Silva, divulgadas através de uma “Exortação Pastoral” a propósito do mês de Maio, com data de 23 de Abril de 1975. Escrevia o Prelado:

            “Esta Diocese tão católica e tão mariana ou tão católica porque tão mariana, pode legitimamente orgulhar-se de ser aquela que no século passado maior contributo prestou à divulgação do piedoso exercício do Mês de Maria. Ao P. Martinho António Pereira da Silva, fundador do Santuário do Sameiro, sacerdote bracarense piedoso e culto […] se ficou a devendo o impulso decisivo para esta devoção, bem como um dos seus compêndios mais conhecidos e divulgados para este piedoso exercício, o livro: <Flores a Maria ou Mez de Maio>”[23].

            Resta-nos a abordagem de um último aspecto, que envolve a escrita e a oralidade, e que é este: o Sameiro tem-se afirmado como grande púlpito para os Arcebispos de Braga e para os seus Bispos Coadjutores e Auxiliares, sobretudo aquando das peregrinações que, como se disse atrás, ocorrem nos meses de Junho, Agosto e Dezembro.

            Deparamo-nos, de novo, com a falta de espaço e tempo. Pelo que nos limitaremos a comprovar a asserção com o exemplo de D. Eurico Dias Nogueira, actualmente Arcebispo emérito desta nossa Arquidiocese.

            Recordemos, em primeiro lugar, a homilia que fez na peregrinação de 4 de Junho de 1978. Respiravam-se os ares da revolução dos cravos. Sem medo, o Prelado denunciava a frustração das expectativas criadas, o oportunismo de quantos – inflamados pelos ventos de Leste – de tudo se apoderavam sem qualquer respeito pela vontade popular, imprecava contra os aventureiros e ambiciosos, contra a apressada descolonização, contra as nacionalizações em catadupa e sem critério, contra o afastamento de pessoas e movimentos não simpáticos ao sistema, contra os militares que não tendo sabido fazer a guerra também não souberam ganhar a paz, contra as prisões por motivos políticos… Mas nesse mesmo dia, o Prelado rezou com o povo pelas vocações sacerdotais, religiosas e missionárias e confiou à Mãe do Céu as famílias expostas a tantos males…[24]

            A voz do Prelado volta a erguer-se, corajosa, na peregrinação de 8 de Dezembro de 1985. Depois de dirigir à Virgem Imaculada os maiores encómios, suplica-lhe que livre a Nação daqueles que não ajudam convenientemente o povo que tinham obrigação de servir; que livre o povo dos políticos interesseiros e ambiciosos, dos governantes incompetentes e improdutivos, dos violentos, corruptos e causadores de divisões entre os portugueses[25].

            No ano seguinte, de novo na festa da Imaculada, as atenções de D. Eurico voltaram-se para a problemática do aborto e da eutanásia. Sem peias, condenado ficou o soberano desrespeito pela vida humana, em qualquer uma das suas etapas[26]

            Quanto a outras peregrinações: em 1987, o Prelado focou a importância das aulas de Moral e Religião Católicas; em 1989, mês de Agosto, denunciou os costumes não evangélicos do povo português, enquanto em Dezembro se insurgiu contra os anti-clericais e inimigos da Igreja; em 1990, no mês de Junho, lembrou a trágica situação dos povos saídos da descolonização portuguesa, enquanto em Dezembro falou do Concílio Vaticano II; em 1991 recordou, no mês de Junho, o Papa Leão XIII e a chamada questão social, e ainda a necessidade de paz para Angola, Moçambique e Timor, enquanto no mês de Dezembro se insurgiu contra o “Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago; em 1993 aludiu a várias chagas sociais; em 1995, apelou ao compromisso com Cristo e com a Igreja, pronunciando-se depois em defesa de um ilustre membro do clero bracarense; em 1996 centrou-se na importância da família; no ano seguinte retornou às chagas sociais: divórcio, aborto, atentados à família, droga, desemprego, racismo e xenofobia…; a defesa da vida voltou a ser tema em 1998…[27]

            Resumindo: pela palavra e pela escrita; pelos testemunhos e pela arte, o Sameiro tem-se vindo a afirmar como púlpito de excelência na Arquidiocese bracarense!

Concluindo

            Deixei propositadamente para o fim o agradecimento sentido aos organizadores deste Congresso Mariano, por ocasião do Centenário da Coroação de Nossa Senhora. Sinto-me honrado por poder participar de um forma activa, aqui aos pés da Virgem, no Monte do Sameiro.

            Sirvam as linhas escritas com preito de homenagem à Mãe. Sei que são incompletas. Sei que valem pouco. Sei que não tiveram mão de artista. Mas a Virgem Imaculada, que nos corações sabe ler, compreenderá que nasceram da devoção, com carinho, com muito amor.

            Gostaria de concluir deixando um desafio. Que poderão ou não considerar. Não passa, afinal, de uma opinião ou de um gosto pessoal. Mas sinto de o exprimir. Sem azedume. Sem crítica. Apenas em jeito de partilha.

            Entendo que se devem completar os mistérios do Rosário em falta, a saber, os dolorosos e luminosos, recentemente propostos pelo Papa João Paulo II, a quem o Sameiro tanto deve. Mas depois disso, resistam, por favor, à tentação de encherem o espaço sagrado envolvente ao Santuário. A sociedade actual precisa de espaços de vazio fecundo, de silêncio, de despoluição, não apenas sonora, também visual. Que bom seria se o Sameiro continuasse a inspirar calma, contemplação, quietude. Que bom seria se continuasse a oferecer ar puro, horizontes vastos, delícias verdes…

            Permitamos que a Boa Nova se continue a difundir; a bem do Lausperene que a Mãe merece; para que a vida dos homens, por intermédio de Maria, continue a chegar aos céus.

                                                                                               Paulo Abreu                 

[1] Fernando LEITE - História do Sameiro. Ed. da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro. Braga 2004. 3ª ed. pp. 54-55.

[2] Ib., p. 63.

[3]  Nº 1, 26 de Maio 1926, p. 3.

[4] J. Augusto FERREIRA – Fastos Episcopaes da Igreja Primacial de Braga (Sec. III – Sec. XX). IV. Ed. da Mitra Bracarense. Braga 1935, p. 325.

[5] Sobre algumas peregrinações especialmente concorridas veja-se Ecos do Sameiro, Ano XXV, Nº 300, Maio de 1951, pp 3 e 4. Também Ecos do Sameiro, Ano XXX, Nº 359, Junho de 1956, pp. 1 e 4.

[6] Cfr Ecos do Sameiro, Nº 310, Março 1952, p. 4; Nº 2, Junho 1926, p. 2; Nº 4, Agosto 1926, p. 3; Nº 6, Outubro 1926, p. 3; Nº 12, Abril 1927, p. 3; Nº 13, Maio de 1927, pp. 2 e 4; Nº 14, Junho 1927, p. 3; Nº 16, Agosto 1927, p. 3; Nº 17, Setembro 1927, p.1; Nº 20, Dezembro 1927, p. 2; Nº 87, Julho 1933, p. 1; Nº 118, Janeiro 1936, p. 1.

[7]  Ecos do Sameiro, Nº 294, Outubro 1950, p. 1.

[8]  Ib., Nº 830/831, Fevereiro/Março 2001, p. 2.

[9] J. Augusto FERREIRA – op. cit., p. 302.

[10]  Cit. por Fernando LEITE –op. cit., p. 11. 

[11] PRIMEIRO CONGRESSO EUCARÍSTICO NACIONAL. Ed. da Empreza “Acção Católica”. Braga 1924, p.388.

[12]  Ecos do Sameiro, Nº 2, Junho 1926, pp. 2 e 3.

[13] CONGRESSO DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO. Edição da Empreza <Acção Católica>. Braga 1930, pp 292-293.

[14] Ecos do Sameiro, Nº52, Agosto 1930, pp. 1 e 2.

[15] SEGUNDO CONGRESSO MARIANO NACIONAL. Escola Tipográfica da Oficina de S. José. Braga 1954, pp. 1011-1012. Ver igualmente Ecos do Sameiro, Nº 336-337, Junho-Julho 1954.

[16] Ecos do Sameiro, Nº 336-337, Junho-Julho 1954, p. 8.

[17] Cfr Ecos do Sameiro, Nº 437, Março 1964, p. 1; Nº 439, Maio 1964, p. 1; Nº 440, Junho-Julho 1964, pp 1 e 2, 8 e 9; Nº 445, Dezembro 1964, p. 1.

[18] Cfr 3º CONGRESSO EUCARÍSTICO NACIONAL. ACTAS. Ed. Universidade Católica Portuguesa / Faculdade de Teologia – Conferência Episcopal Portuguesa. Braga 1999.

[19]  Nº 379, Junho-Julho de 1958, p.1.

[20] Cfr Acção Católica, vol. LXVII, Maio-Junho, nºs 5 e 6, p. 190.

[21] Os dados aqui reportados foram-nos gentilmente cedidos pelo actual Reitor da Basílica do Sameiro, Mons. Joaquim Morais da Costa. Em anexo inserimos a listagem completa dos casamentos, jubileus de casamentos e baptizados, no período referido: 1945-2003.

[22]  Cfr Mário AREIAS – A estatuária religiosa no Monte do Sameiro do escultor Raul Xavier. Academia Nacional de Ex-libris,  S.l., 1961; Manuel Aguiar BARREIROS – A alma da alma do Sameiro. Confraria de Nª Sª do Sameiro, Braga 1975; Centenário da morte do Padre Martinho fundador do Santuário do Sameiro. Confraria de Nª Sª do Sameiro, Braga 1975; Bernardo Xavier COUTINHO – “Como nasceu o Santuário do Sameiro”, in O Distrito de Braga, 4 (1-2), 1986, 247-340; Fernando LEITE – “A influência do Sameiro na piedade mariana – 1869-1962”, in Theologica, Braga 22-23, 1991; Lourdes no Sameiro: 1858-1958. Braga, 1958; Memórias do Sameiro… Typ. da Ordem, Coimbra 1882; Carlos João RADEMAKER – Discurso pronunciado em occasião das preces públicas na peregrinação ao Monte Sameiro para obter de Deus a restauração da independência do Sumo Pontífice. Typ. Lusitana, Braga 1871; José Carlos de Sousa Alves VIEIRA – Para a história do Sameiro. Confraria do Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, Sameiro 1930.

[23] Acção Católica 1975 (8-9)p. 378.

[24] Ib., 1978 (8-9) 362-374.

[25] Ib., 1985 (11-12) 825.

[26] Cfr Ib., 1986 (11-12) 755.

[27] Cfr Acção Católica, 1987 (11-12) 888; 1989 (1) 33-41 e (8-9) 791-795; 1990 (6) 411 e (12) 921-923; 1991 (6) 697-701 e (12) 1149-1151; 1993 (6) 384-387; 1995 (6) 472-475; 1996 (6) 613-614; 1997 (6) 484-485; 1998 (1) 9-13 e (6) 331-337.