Um saltimbanco que nada tinha de valioso para oferecer
Tento uma tradução muito livre de uma história que encontrei no livro “Cuentos impacientes por ser contados”, da autoria de Henri Gougaud (Ediciones Sigueme).
Saltimbanco: agradava-lhe essa palavra, que dava saltos nas feiras à volta de uma canção. Toda a sua vida, de cambalhotas e malabarismos, de tamborete e jogos de magia, tinha sido empregue a driblar a miséria, que cavalgava sem cessar atrás dele. Animava as festas da aldeia e as cubas de vinho novo. Não sabia fazer outra coisa senão alegrar o povo, surpreendê-lo e diverti-lo.
Mas um domingo, pela tarde, os seus ombros e a sua velha coluna vertebral disseram que já não podia mais.
Naquela noite, conseguiu alojar-se num mosteiro que acolhia os que arrastam os seus pés descalços por este mundo de caminhos demasiado rudes.
Pela manhã, quando se dispunha a partir, curvado e cabisbaixo, ouviu o monge porteiro dizer-lhe:
– Estás com um ar muito abatido. Se te contentas com um colchão de palha, podes ficar alguns dias connosco, o tempo que necessites até convenceres as tuas pernas a levarem-te para o paraíso.
– Obrigado, irmão.
E por ali ficou.
Não era dos que se empanturram “à borla” com pão fresco e caldo de couves. Quis, pois, ser útil e ofereceu as suas mãos aos monges.
Encomendaram-lhe que limpasse, que esfregasse o chão, que se ocupasse do jardim e que, todas as manhãs, pusesse na capela um ramo novo de flores silvestres aos pés da Virgem Maria.
Será que ele a admirava? – Não, amava-a. Nossa Senhora e o seu pequenino, ali, aconchegado sobre o seu peito: que maravilha! Ao contemplar o seu véu de azul algo descolorido, o seu perpétuo sorriso e o seu bebé de bochechas arredondadas, às vezes até lhe caía uma lágrima pelo canto do olho. O que mais lhe agravada no mundo era poder fazer alguma coisa por ela. Os monges cantavam-lhe todos os dias belíssimos cânticos, que perfumavam o lugar santo da sua morada. Mas ele, que tinha para oferecer?! – Piruetas de equilibrista, jogos de magia, antigas danças … Nada de valioso!
Mas um dia passou-lhe pela cabeça que com os seus truques poderia divertir o Menino e até, quem sabe, distrair a Mãe. A “pobre” Senhora, afinal, nunca saía a passear pelo jardim.
Então pegou em aros, em bolas, em baquetas, despertou as suas pernas oxidadas, deu três saltos perigosos…
Acabou estatelado no meio do chão; quis fazer malabarismos, mas deixou cair as bolas… Rematou o desacerto com três passos de dança de palhaço.
Nesse instante entrou um monge na capela e deteve-se no umbral, com os olhos esbugalhados e a boca a tartamudear. Palhaçadas diante da imagem da Virgem Maria?! Que horror, que blasfémia, que sacrilégio!
Saiu a correr, à procura do abade e contou-lhe o sucedido, tagarelando atabalhoadamente.
Acorreram os dois à capela e ficaram espantados, boquiabertos, sem reação. O santo Menino sorria; e a Mãe enxugava, com uma orla do seu véu azul, a fronte transpirada do saltimbanco, que os saudava como nos tempos dos espetáculos felizes.
Bem, o que fica para a história não é o palhaço alquebrado. É a vontade de fazer algo pela Mãe e o desejo de ver o Menino sorrir. Tudo na força de um amor simples, humilde e terno.
Nada de valioso para oferecer?! – O que temos e somos. Na espontaneidade. Na vontade de agradar. Amando e louvando.
Essas são as flores que fazem o Menino sorrir; essas são as flores que põem a Mãe a estender-nos o manto com que enxuga os nossos suores e as nossas lágrimas.
Recebe, Mãe, o nosso amor pleno e desarmado. E dá vigor aos nossos pés descalços e cansados!
Cón. José Paulo Leite de Abreu
Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro
Um saltimbanco que nada tinha de valioso para oferecer
Tento uma tradução muito livre de uma história que encontrei no livro “Cuentos impacientes por ser contados”, da autoria de Henri Gougaud (Ediciones Sigueme).
Saltimbanco: agradava-lhe essa palavra, que dava saltos nas feiras à volta de uma canção. Toda a sua vida, de cambalhotas e malabarismos, de tamborete e jogos de magia, tinha sido empregue a driblar a miséria, que cavalgava sem cessar atrás dele. Animava as festas da aldeia e as cubas de vinho novo. Não sabia fazer outra coisa senão alegrar o povo, surpreendê-lo e diverti-lo.
Mas um domingo, pela tarde, os seus ombros e a sua velha coluna vertebral disseram que já não podia mais.
Naquela noite, conseguiu alojar-se num mosteiro que acolhia os que arrastam os seus pés descalços por este mundo de caminhos demasiado rudes.
Pela manhã, quando se dispunha a partir, curvado e cabisbaixo, ouviu o monge porteiro dizer-lhe:
– Estás com um ar muito abatido. Se te contentas com um colchão de palha, podes ficar alguns dias connosco, o tempo que necessites até convenceres as tuas pernas a levarem-te para o paraíso.
– Obrigado, irmão.
E por ali ficou.
Não era dos que se empanturram “à borla” com pão fresco e caldo de couves. Quis, pois, ser útil e ofereceu as suas mãos aos monges.
Encomendaram-lhe que limpasse, que esfregasse o chão, que se ocupasse do jardim e que, todas as manhãs, pusesse na capela um ramo novo de flores silvestres aos pés da Virgem Maria.
Será que ele a admirava? – Não, amava-a. Nossa Senhora e o seu pequenino, ali, aconchegado sobre o seu peito: que maravilha! Ao contemplar o seu véu de azul algo descolorido, o seu perpétuo sorriso e o seu bebé de bochechas arredondadas, às vezes até lhe caía uma lágrima pelo canto do olho. O que mais lhe agravada no mundo era poder fazer alguma coisa por ela. Os monges cantavam-lhe todos os dias belíssimos cânticos, que perfumavam o lugar santo da sua morada. Mas ele, que tinha para oferecer?! – Piruetas de equilibrista, jogos de magia, antigas danças … Nada de valioso!
Mas um dia passou-lhe pela cabeça que com os seus truques poderia divertir o Menino e até, quem sabe, distrair a Mãe. A “pobre” Senhora, afinal, nunca saía a passear pelo jardim.
Então pegou em aros, em bolas, em baquetas, despertou as suas pernas oxidadas, deu três saltos perigosos…
Acabou estatelado no meio do chão; quis fazer malabarismos, mas deixou cair as bolas… Rematou o desacerto com três passos de dança de palhaço.
Nesse instante entrou um monge na capela e deteve-se no umbral, com os olhos esbugalhados e a boca a tartamudear. Palhaçadas diante da imagem da Virgem Maria?! Que horror, que blasfémia, que sacrilégio!
Saiu a correr, à procura do abade e contou-lhe o sucedido, tagarelando atabalhoadamente.
Acorreram os dois à capela e ficaram espantados, boquiabertos, sem reação. O santo Menino sorria; e a Mãe enxugava, com uma orla do seu véu azul, a fronte transpirada do saltimbanco, que os saudava como nos tempos dos espetáculos felizes.
Bem, o que fica para a história não é o palhaço alquebrado. É a vontade de fazer algo pela Mãe e o desejo de ver o Menino sorrir. Tudo na força de um amor simples, humilde e terno.
Nada de valioso para oferecer?! – O que temos e somos. Na espontaneidade. Na vontade de agradar. Amando e louvando.
Essas são as flores que fazem o Menino sorrir; essas são as flores que põem a Mãe a estender-nos o manto com que enxuga os nossos suores e as nossas lágrimas.
Recebe, Mãe, o nosso amor pleno e desarmado. E dá vigor aos nossos pés descalços e cansados!
Cón. José Paulo Leite de Abreu
Presidente da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro







